RESPM-20 anos
entrevista | ORLANDO MARQUES Revista da ESPM | julho/agostode 2014 114 Orlando — Obviamente, há muita gente querendo fazer o bem para a sociedade. Deputados e senadores bem intencionados e commuitos pro- jetos que devem ser analisados com respeito. Mas o fato é que interessa ao governo ter mais controle e exercer mais poder. Éumaquestão simples: na medida em que um meio de comuni- cação tem sua capacidade de recursos restringida e passa a depender mais da propaganda oficial, é mais fácil ter controle sobre a mídia. Para nós, é o mesmo motivo pelo qual somos con- tra as centrais demídia no Brasil. Arnaldo — Por quê? Orlando — Porque queremos um mo- delo pulverizado, em que um empre- sário pode ter a sua revista, vender seus anúncios e, se amanhã quiser dar um cacete na empresa A, B ou C, ele tem independência. Subordinados a uma central de mídia, os meios perdem esse poder. Essa é uma causa que vamos defender até o fim. Como trabalhei tantos anos em veículos, eu sei a importância de brigar por isso. Arnaldo —Qual é o perfil que omercado espera do profissional de comunicação? Orlando — Eu sou ex-aluno da ESPMe faço parte do conselho da Escola. Para o aluno da ESPM, a expectativa não é muito diferente de 1973, quando me formei. O que mudou é que hoje você tem de ser muito melhor. Eu, sendo espertinho, consegui ficar 20 anos na Editora Abril. Eu fui para lá porque levava algum jeito para vender anúncios, fui aprendendo como as coisas funcionavam e acabei subindo aos poucos. Hoje, as empresas não têm esse tempo todo para ensinar. O jovem profissional tem de ser multi- facetado, entender um pouco de tudo, porque vão exigir dele sempre uma antena ligada. É preciso ter arcabouço intelectual. Mas precisa ter garra, tesão, senão ele não vai chegar a lugar nenhum. Isso vale tanto hoje quanto em 1973. Eu me lembro direitinho como entrei na Editora Abril. Um dia, um professor disse que eles estavam procurando três pessoas para vagas de trainee . De 40 alunos, uns seis ou sete se candidataram. Eu e mais dois colegas fomos para lá. Um deles, como eu, ficou mais de 20 anos. O outro acabou seguindo para a Rede Globo, anos depois. Nós fizemos car- reira na Editora Abril. Arnaldo — Mas hoje os profissionais não têm essa mesma visão de carreira de longo prazo. Orlando — É o que eu sempre digo para o pessoal mais jovem: foque naquilo que você quer fazer. Se você quer ser profissional de mídia, vá fundo. Não fique pulando de galho em galho. O Ivan Pinto [ presidente da Abap na década de 1990 ] foi meu professor e uma vez, quando era contato publicitário, mandei um bi- lhetinho para ele dizendo que gosta- ria de ser atendimento na então Lin- tas, onde ele trabalhava na época. Ele me chamou e disse: “Orlando, você não tem perfil de atendimen- to, você está indo bem em veículo. Aprenda tudo em veículo, que, um dia, você pode ter sucesso numa agência”. E não é que deu certo? Eu fiz carreira a vida inteira em veículo e hoje sou presidente de agência. Arnaldo — A nova geração é mais im- paciente e menos ligada em hierarquia. Por outro lado, possui talentos que valem ouro para as empresas. Como o mercado deve agir para absorver esses talentos? Orlando —Nós temos de trazê-los jus- tamente por esses talentos. É preciso saber respeitá-los. Por exemplo: nós temos um procedimento interno de segurança para não deixar gavetas destrancadas, material à vista etc. Um dos nossos garotos da criação esqueceu o gaveteiro aberto e tomou uma multa. Essa multa vem para mim e o sujeito precisa pegar a chave dele na minha sala. Esse menino já era reincidente, então olha só o que ele fez: juntou-se com o seu dupla de criação e fez umamúsica. Os dois che- garam com a violinha na minha sala cantando: “Foi mal, pegou mal, eu sei que foi mal”. Eu vou dar uma bronca nesse moleque por causa disso? Não. Essa geração funciona assim. Ele não foi tirar temperatura com ninguém para ver se aquilo era desrespeitoso. Eu é que tenho de entender o pedido de desculpas dele. São jovens que não funcionam “by the book”, como a gen- te dizia antigamente. Eles são mais criativos e espontâneos. Isso não é defeito. É qualidade! Obrasileiro tema tendência de querer um Estado superprotetor, o que, somado a essa vocação latino-americana de ditadores de plantão, cria um inferno na vida de agências e anunciantes
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