RESPM-20 anos
história Revista da ESPM | julho/agostode 2014 118 sistêmica que, uma vez atacada com sucesso, gere o apoio político suficiente para enfrentar em sequência rápida um amplo conjunto de reformas. Em períodos históricos mais normais, que não marquem mudan- ças de época, se reduz — tanto para o bemquanto para o mal — o espaço político para grandesmudanças institu- cionais, porque os interesses sociais organizados têm maior capacidade de resposta e resistência a iniciativas governamentais. Aindamais no Brasil, onde hoje quase tudo é matéria constitucional. As contradições e o mal-estar do sucesso Omal-estar dopresente pode ser explicado emboa parte pelo sucesso das últimas duas décadas. Conquistada a estabilidade, modernizada parcialmente a economia, recuperada e reinventada emparte a capacidade de ação doEstado, o país democratizou-se comonunca antes em sua história. Emvários sentidos. Jamais foi tão ampla a participação eleitoral da população brasileira. Jamais foi tão amplo o acesso à informação. Apesar dos pesa- res, jamais tantos brasileiros estiveramna escola ounas universidades. Nunca antes na história deste país houve umnúmero proporcionalmente tão grande de trabalha- dores comcarteira assinada. Com tudo isso, expandiu- se não apenas o consumo de bens, mas tambéma noção de cidadania. Estamos ainda longe de universalizá-la, na prática, mas, com percalços, é nítido que estamos caminhando nessa direção. As tensões brotam da distância entre as promessas e potencialidades inscritas nessas mudanças sociais e acapacidadequetemoEstadoeaeconomiadeatendê-las. Essa distância aumentou nos últimos quatro anos, não porque as expectativas de novos ganhos futuros tenham refluído, mas ao contrário. Depois de se eleva- rem seguidamente nos dez anos anteriores, não raro infladas por uma retórica triunfalista, as expectativas Nãohá como incrementar aindamais o saláriomínimo e pagarmais benefícios se a economianão cresce o suficiente para absorver amão de obra e gerar a arrecadação de que o Estado precisa A desaceleração do crescimento, a maior restrição ao crédito e o aumento da inflação concorreram para frear o consumo das famílias shutterstock
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