RESPM-20 anos
Sociedade Revista da ESPM | julho/agostode 2014 142 Voltando ao que permanece como identidade, a juven- tude é disruptiva e está sempre embusca de sentido, nas duas conotações: significado e direção. Paradoxo: mobilidade versus dependência Provavelmente, a maior revolução ocorrida no período foi a do acesso à internet e, mais recentemente, à inter- netmóvel. Em1994, engatinhávamos na internet caseira. Hoje, sabemos, a grande onda é omundomobile, cada vez mais integrado aos telefones, relógios, ou óculos. Isso já é um foco específico do marketing. A invasão de toda a nossa experiência virtual parece ser a vitória de um regime alienante com relação ao mundo, conduzindo a uma experiência de superficia- lidade. Mas é preciso também chamar a atenção sobre uma transformação importante na relação que se estabe- lece atualmente com a cultura de massas. Na década de 1990, ainda se falava muito da passividade das pessoas frente à grande mídia, que era basicamente a televisão. Hoje, todas as mídias, em alguma medida, incorporam graus diferentes de interatividade, que acabam transfor- mando omero espectador emalguémcapaz de interferir na rede. Como exemplo, temos os inúmerosmovimentos populares dos últimos anos (como aPrimaveraÁrabe e as manifestações relatadas acima), que forammobilizados pelas redes sociais. Por meio da internet móvel, fotos e vídeos erampostados emtempo real, dificultando a pos- sibilidade demanipulação pelosmeios de comunicação. Isso é umcaminho para que as pessoas construame pre- servemsuas singularidades numambiente, a princípio, pouco favorável a isto. A mobilidade absoluta que conquistamos estabelece umparadoxo entre liberdade e dependência. Hoje, pode- mos ter acessoà internet emqualquer lugar e acessar nos- sos dados de qualquer aparelho, graças à possibilidade de armazenamento emnuvens. A sensação de liberdade material ou espacial não esconde a dependência absoluta que passamos a ter desses meios virtuais. Oque se oculta sob essa realidade é que o acesso a nos- sos documentos e fotos depende de inúmeras empresas (sistemas operacionais, de armazenamento etc.) movi- das por seus interesses comerciais. O que se desenha é um estreitamento da experiência privada e da intimi- dade. As memórias, confissões e reflexões tornam-se todas instantaneamente públicas emonitoradas. Há uma nova subjetividade em formação, com recursos quemal podemos antever. E que parece perder nas dimensões de autonomia e privacidade —dois pontos característicos da subjetividade moderna. Conclusão: a dinâmicanarcisística de entorpecimento e superficialidade já identificável há20anosperdura,mas começa a surgir umnovo panorama, que chamo de pas- sagemao ato. Os jovens de hojeme parecemmais atores em suas experiências de criação e compartilhamento, como tambémna expressão da violência e da intolerân- cia. Podemos ficar assustados e preocupados, mas difi- cilmente alguém vai preferir que os jovens voltem para a frente da TV e lá passempassivamente as suas vidas. Este artigo foi escrito à luz da minha experiência como professor da ESPM e psicanalista. Hoje, posso afirmar que ser professor é mais desafiador que há 20 anos, por vários motivos: é preciso concorrer com a distração dos smartphones e, ao mesmo tempo, estar muito preparado para incorporar as novas tecnolo- gias nos processos de aprendizagem. Ainda assim, nosso trabalho permanece sendo essencialmente o mesmo: somos aqueles que podem franquear e facilitar o acesso à cultura. Nós, professores, podemos trazer instrumentos narrativos, históricos e teóricos para dar sentido e ordenar a massa de informações que os jovens estudantes já têm à sua disposição. Tudo para que eles se tornem profissionais transformadores da realidade e não se afoguem na cegueira branca do excesso de estímulos (descrita por José Saramago), e também não sejam obrigados a inventar a roda, par- tindo do zero, a cada momento. Pedro Luiz Ribeiro de Santi Psicanalista, professor e líder da área de comunicação e artes da graduação da ESPM-SP. Professor da especialização em teoria psicanalítica (COGEAE, PUC-SP) e autor de Desejo e adição nas relações de consumo (Editora Zagodoni, 2011) e de A crítica ao eu na modernidade: em Montaigne e Freud (Editora Casa do Psicólogo, 2003) Existe algo semovendo forade nossos paradigmas. Ageração jovematual é ativa, inovadora,mobilizada e capaz. Eaindanão aprendemos a falar comela
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