RESPM-20 anos

julho/agostode2014| RevistadaESPM 155 sabia que o Brasil inteiro assistiria. O país inteiro veria. No dia seguinte, você receberia elogios ou a pior das críticas, que era simplesmente não perceberem o seu comercial. Hoje já não é mais assim. O comercial já não tem aquela relevância. Esse espaço perdido tira umpouco do brilho. Alexandre — A criatividade não de- veria ter até mais valor se a audiência já não é mais tão decisiva? Dalton — Deveria, mas, ao mesmo tempo que se deu essa perda de re- levância do comercial, os clientes começaram a discutir a remunera- ção das agências. As agências pas- saram a ser menos remuneradas. Passaram a ter dificuldades para manter as suas estruturas. Então, de um lado, tira-se um pouco da re- levância do comercial pela perda de audiência e, de outro lado, tiram-se da agência recursos que ela usava para pagar salários fenomenais, que atraíam gente desesperada para fazer um grande comercial. Alexandre — Posso entender, por- tanto, que a propaganda está menos criativa hoje? Dalton — Não sei se ela está menos criativa. Ela tem menos brilho. Me- nos importância. Você falou do Tio Sukita. Em 2002, para filmar um comercial do Tio Sukita, tivemos de montar um esquema de segurança para fugir da imprensa, que ficava tentando descobrir qual era o rotei- ro, onde ia ser filmado, como ia ser filmado. Na época, colocávamos um novo comercial no ar e ele era o mais lembrado da televisão brasileira, com umnível demídia baixíssimo. Ofilme do Tio Sukita chegou a ser citado em pesquisa como “O comercial mais legal que você viu ontem”, mesmo com a campanha estando fora do ar há três meses. Eu não sei se existe mais espaço para isso. Talvez exista. Talvez surja algum outro comercial com esse nível de brilho, de impacto. Aquele comercial que todomundo sai comentando. Não sei se isso volta. Alexandre — Por que já não se usa o humor na propaganda como antes? Dalton — É que a sociedade ficou mais chata. As pessoas ficaram mais chatas. Mais carrancudas. Surgiu o politicamente correto, e a gente já não podia fazer piada de careca, de gago, de cego, de minoria nenhuma. Para qualquer comercial que você faça já aparecem críticas. A sociedade ficou menos tolerante. Alexandre — Tivemos recentemente o filme do Bom Negócio em que Compa- dre Washington dizia a palavra “ordi- nária”. Um grupo de mulheres que se sentiram ofendidas recorreu ao Conar, que mandou tirar do ar. Dalton — Pois é. Essa campanha serve de exemplo para duas coisas de que acabamos de falar. Primeiro, é uma mídia on-line anunciando na mídia tradicional. Segundo, imagi- ne se isso [a polêmica do “ordiná- ria”] aconteceria um tempo atrás. Esse comercial iria passar, todo Existemmovimentos que colocamemrisco a liberdade de expressão comercial. Ehá agências reguladoras, como aAnvisa, que estãomuito influenciadas ideologicamente contra o capitalismo e o consumo Emmaio, o Conar tiroudo ar a campanha do site de classificados bomnegócio. com, estrelada pelo cantor CompadreWashington, por conta do termo ”vem ordinária”, considerada desrespeitosa ao público feminino divulgação

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