RESPM-20 anos

entrevista | dalton pastore junior Revista da ESPM | julho/agostode 2014 158 tações, tanto pela polícia quanto por manifestantes, como exemplo das dificuldades. Dalton — Se você pegar a história do Brasi l, nós tivemos o tempo i ntei ro ameaças à liberdade de expressão. Recentemente, depois de acabar a ditadura militar, é que nós passamos a viver, de repente, uma liberdade de expressão plena. Então, ela é, sim, muito jovem. Nesta infância da nossa liberdade de expressão, você vê agora esses temas voltando o tempo todo ao debate, trazidos pelo partido que está no poder. Democratização da mídia, controle social da mídia. Colocam a culpa na mídia por tudo o que acontece. Chamam de mídia tradicionalista, de mídia da elite branca. É um clima de constante ameaça. Parece haver uma guerra entre o governo e a mídia. Uma mídia que “informa errado”, que “provoca”. Alexandre — Guerra essa que nós vemos ser travada nos países vizinhos. Dalton — Se você for olhar, são exa- tamente os mesmos argumentos usados na Argentina, no Equador, na Venezuela e na Bolívia. A histó- ria se repete ipsis litteris . É a mesma coisa, igualzinha. Você olha esses exemplos e vê que [o confronto entre governo e mídia] começou exata- mente da mesma maneira. É claro que preocupa. Como resultado dessa preocupação, você tem ações. Re- centemente, nós tivemos um jantar do ForCom com o vice-presidente da República, Michel Temer, até para alertá-lo. Alexandre — Vocês estão se sentindo ameaçados? Dalton — Não, estamos apreensi- vos. Vemos o que está acontecendo em outros países, vemos que tudo começou como está começando no Brasil e vemos a enorme proximi- dade ideológica do Brasil com tais países. Alexandre — Que balanço você faz da campanha Somos Todos Responsá- veis, da Abap? Dalton — Essa foi uma resposta da Abap a um grupo organizado que acha que sabe melhor do que os pais o que as crianças podem ou não ver. Não podemos transferir a respon- sabilidade para esse grupo. Isso é problema dos pais, dos professores, de todos nós. Agora, porque esse grupo se autodenomina defensor das crianças, nós temos de fazer o que ele quer? Como? De que forma? Seria como se amanhã eu juntasse um grupo aqui e proclamasse que somos os defensores do jornalismo e temos de dizer o que o jornalista pode ou não pode escrever. Baseado em quê? Alexandre — Esse assunto, criança e consumo, tem de ser discutido? Dalton — Tem, sim. Assim como tem de ser discutido consumo em gera l, end iv idamento fami l ia r, tudo tem de ser discutido. Existem grupos que querem discutir crian- ça e consumo? Vamos d iscut i r também. Abrimos essa discussão e trouxemos pediatras, psicólogos, educadores, um mundo de gente. É esta a resposta da Abap: você [grupo defensor das crianças] se autodenomina dono desse assunto, mas não é! Alexandre — Vai fazer dez anos em 2015 que começou a crise política batizada de Escândalo do Mensalão. Quando o escândalo estourou e duas agências de publicidade mineiras se viram no olho do furacão, você esta- va à frente da Abap. Mudou alguma coisa relevante na relação entre pu- blicidade e política? Dalton — Não sei. Eu gosto de pen- sar que sim. O Escândalo do Men- salão foi, para a publicidade bra- sileira, uma catástrofe. Colocou a publicidade brasileira em uma situação que ela jamais tinha expe- rimentado. Publicitário virou sinô- nimo de trambiqueiro, de bandido. Foi um momento muito difícil. Eu cheguei a participar de diversos de- bates em que o palestrante já come- çava dizendo: “A publicidade é um excelente canal para a corrupção política”. Então, gosto de pensar, e espero, que essa relação [ilícita com a política] nunca mais se repita. Mas eu não tenho como afirmar com certeza. OEscândalo doMensalão foi uma catástrofe. Colocou a publicidade brasileira emuma situação que ela jamais tinha experimentado. Publicitário virou sinônimo de trambiqueiro, de bandido

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