RESPM-20 anos
globalização Revista da ESPM | julho/agostode 2014 44 É claro que, no que diz respeito ao futuro, essas con- vicções são uma visão ideal que não acontecerá por si só. Quando o grande escritor austríaco Stefan Zweig chegou ao Brasil em agosto de 1940, fugido de uma Europa car- regada de nuvens negras, vislumbrou o país do futuro. Alguns cínicos acrescentaram posteriormente a essa frase o seguinte complemento: “e sempre será”. Em ver- dade, esse conceito é apenas impressionista, semqual- quer valor analítico. Façamos uma breve tentativa de analisar racional- mente, sembola de cristal, a questão do futuro do Brasil. Examinemos a demografia, categoria fundamental paraprojetar o rumodeumanação. Hoje com201milhões de habitantes, o Brasil não chegará a ter 230 milhões de pessoas vivendo em seu território. Os dados estão em uma pesquisa feita em 2013, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), publicada com a projeção de população do país até 2060. Daqui a dez anos, a popu- lação nacional calcula-se que estará em 214.747.509. De maneiracrescente, osbrasileiroschegarãoa228,3milhões em2042, e daí a cifra começa a declinar. Sobre o trabalho do IBGE, não se pode descon- siderar que se trata de projeções, produtos sempre sujeitos a erro por natureza que, embora com crité- rios complexos, procuram estabelecer um resultado matemático futuro baseado em padrões do passado. Mas, o que nos mostra essa projeção? Em primeiro lugar, que o Brasil continuará a ter, nos próximos 30 anos, uma população em crescimento vigoroso e, portanto, uma importante força de trabalho e de consumo. Em segundo lugar, malgrado o aumento da população idosa, o contingente de jovens ainda será mais importante. A se confirmarem essas cifras, o Brasil será capaz de diferenciar-se de países como os da Europa e o Japão, cuja população envelhece consi- deravelmente e, por isso, coloca um peso maior nos cidadãos ativos e na previdência social. Estes números, porém, são frios. O importante é ana- lisar como fica essa população nas próximas décadas. Alguns dados são preocupantes e não podem ser esca- moteados numa análise séria sobre as perspectivas que se apresentam para a nação. Examinemos a posição do Brasil em termos de cone- xão comomundo. De acordo com a consultoria McKin- sey, nosso país é apenas a 43ª economiamais conectada do mundo. Ela afirma que o Brasil ganhou 15 posições desde 1995, graças ao aumento nos fluxos financeiros (item em que o país está em 18º lugar) e dos altos níveis de investimento estrangeiro direto. Porémumhistórico de protecionismo e uma infraestrutura deficiente são alguns dos motivos que fazemo país ser “surpreenden- temente pouco conectado”. É preciso acrescentar que o baixo nível educacional médio da população tam- bém contribui para esse desempenho medíocre. Com a importância sempre crescente da internet em todas as áreas, essa constatação da McKinsey ilumina uma grave desvantagem competitiva do Brasil. No ranking geral, o Brasil aparece abaixo de todos os Briscs e de outros emergentes, comoArábia Saudita (16ª) e Turquia (27ª). Alemanha, Hong Kong, Estados Unidos e Cingapura lideram. A conclusão da McKinsey é que, de forma geral, quem se conecta mais é recompensado com ummaior crescimento econômico. O economista Roberto Gianetti da Fonseca escreveu no jornal Valor Econômico umprovocante artigo, intitu- lado “Que país é este?”, publicado no dia 4 de junho de 2012. Vale transcrever um trecho interessante que põe o dedo emalguns nervos expostos da governança do país: “… o saudável sentimento da autocrítica nos leva então a perguntar: Que país é este que pratica já por mais de 15 anos os juros mais altos do mundo mesmo estando sua econo- mia hoje emdia classificada em grau de investimento e com razoável estabilidade política e econômica? Quepaíséestenoqualataxadecâmbioapreciadasufoca a competitividade das indústrias, e leva sua economia a umprecoce e aceleradoprocessode desindustrialização? Que país é este no qual a excessiva carga tributária e a péssima estrutura de tributos e impostos resultam num ambiente de permanente litígio entre o fisco e os contribuintes, além de um ambiente de insegurança OBrasil é apenas a 43ª economia mais conectada do mundo, devido ao histórico de protecionismo e infraestrutura deficiente da nação
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