RESPM-20 anos
globalização Revista da ESPM | julho/agostode 2014 50 sempre haverá a possibilidade de negociar a eliminação de barreiras que afetam as exportações de produtos em que o Brasil é competitivo. Nessa agenda de acordos comerciais internacionais, duas devem ser as prioridades de curto prazo. A pri- meira delas é a prioridade em termos de negociações preferenciais, que devemestar concentradas nas Améri- cas. Essa é a fronteira natural de inserção internacional para as empresas manufatureiras brasileiras. Os esfor- ços devem estar direcionados para quatro iniciativas: 1. Rever o modelo de integração do Mercosul, reduzindo o peso da união aduaneira — que tem se mostrado cres- centemente disfuncional aos interesses e estratégias dos países — e atualizando a agenda de livre comércio, para que essa possa apoiar as atividades das empresas bra- sileiras na região. 2. Liderar o projeto de criação de uma abrangente área de livre comércio na América Latina com a convergên- cia de todos os acordos sub-regionais existentes no con- tinente. Esta prioridade deve se desdobrar ainda no campo da infraestrutura. 3. Lançar as bases para um acordo preferencial com os Estados Unidos, mercado tradicionalmente relevante para as exportações de manufaturados brasileiros. 4. Concluir as negociações com a União Europeia. O bloco é o principal mercado para as exportações brasi- leiras e já há um grande esforço negociador despendido nessa frente de negociações. Asegundaprioridadedecurtoprazodeveser adeapoiar a retomada das negociações da Rodada Doha naOrgani- zaçãoMundial do Comércio (OMC). OBrasil deve voltar a assumir o papel de protagonista no foromultilateral e buscar participar ativamente das negociações emcurso. A liberalização comercial unilateral pode servir como estímulo para a participação do Brasil emacordos regio- nais de comércio mais abrangentes. Em uma segunda etapa, a agenda deveria envolver acordos de livre comér- cio comos da Índia, da África do Sul e dos países doCon- selho de Cooperação do Golfo. O Brasil deverá acompa- nhar de perto as negociações dosmegablocos comerciais (Transpacífico e Transatlântico) e reavaliar suas estraté- gias em função da evolução dessas negociações. Finalmente, uma palavra sobre as relações interna- cionais do Brasil. O propósito fundamental da política externa brasileira é contribuir para a promoçãode desen- volvimentodopaís. Ao contráriode outros, que têmdesa- fios militares e de segurança, somos um país pacífico e não ameaçado, cuja prioridade só pode ser a melhoria das condições de vida de nossa sociedade e de nossa economia. Obviamente, nosso país não pode pretender afirmar-se na cena internacional pelo seu hard power , em especial a força militar. Seria um grave desserviço ao povo brasileiro consagrar ao armamento, inclusive nuclear, as somas fabulosas necessárias para ter alguma credibilidade emdetrimento dos recursos de que nossos investimentos sociais requerem. Isso para não falar dos sérios problemas derivados da quebra de nossos compro- missos jurídicos internacionais. A essência de nosso soft power , maior trunfo que o Bra- sil possui, só pode ser a coexistência harmoniosa e cons- trutiva com nossos vizinhos, a contribuição que temos dado à paz e à segurança internacionais, nossa presença ativa nas questões de meio ambiente, não proliferação nuclear, comércio, direitos humanos e direito interna- cional. Assim, o Brasil deve evitar que preconceitos ide- ológicos nos levem a adotar posições artificiais. Igual- mente precisa resguardar-se de buscar um papel maior que nosso efetivo poder internacional, porque invaria- velmente assimfazendo acabamos dificultando a defesa dos nossos verdadeiros interesses. Todas essas questões são desafios que o Brasil tem de encarar.Nossopaíspossui todasascondiçõesparaser afir- mativo, justo e bemresolvido, mas precisa antes superar os obstáculos que limitamo nosso futuro. Luiz Felipe Lampreia Professor associado de relações internacionais da ESPM OBrasil será capaz de diferenciar-se daEuropa e do Japão, cujapopulação envelhece e colocaumpesomaior nos cidadãos ativos e naprevidência social
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