RESPM-SET_OUT-2015-baixa
Revista da ESPM | setembro/outubrode 2015 38 mercado A nos atrás, durante uma viagemà Itália, um professor daESPMparouparaobservar uma cena típica que acontecenodia a dia de toda grande cidade emqualquer partedomundo: umcaminhãoentregandomercadoriasaumdosmilhares de supermercados deRoma. Oque atraiu a atençãodesse professor foi o fato de a placa do caminhão ser de Barce- lona. Conversando com o motorista, ele ficou sabendo que a maior parte da mercadoria entregue havia sido produzida na França e encomendada por uma empresa sueca. Descobriu tambémque o caminhão, de fabricação alemã, tinhasidofinanciadoporumfundo inglês, sediado nas Ilhas Virgens. E, ao observar a fatura apresentada ao supermercado, notou que ela havia sido emitida por um banco suíço. Essa história foi vivenciada pelo professor FranciscoGracioso, presidentedoconselhoeditorial, que usou esse exemplo para ilustrar um fenômeno que vem acontecendo com crescente intensidade: a importância das cadeias globais de valor. Essa simples entrega feita ao supermercado italiano é um retrato fiel de como as empresas multinacionais passaram a distribuir as etapas do processo de produ- ção de seus bens e serviços entre vários países. É essa distribuição que dá origem às famosas cadeias globais de valor (CGV), cada vez mais complexas, extensas e commúltiplas consequências para empresas e países. Umdosmaiores impactos gerados por esse fenômeno é a forma como as empresas situadas em um determi- nadopaís se inseremnessasCGVs. Esseposicionamento exerce cada vez mais influência no nível de renda e na qualidade de vida dos cidadãos desse país. Se a inserção dessasempresasocorreemetapasqueagregamumbaixo valor, requerempouco conhecimento e sãodependentes de recursosnaturais, a tendênciaéqueessas companhias gerempoucos recursos, ofereçamempregosdebaixaqua- lidade e remuneremmal seus colaboradores. O oposto acontece quando essas empresas passama ocupar posi- çõesque lhespermitamcoordenar oconjuntodosproces- sos e reter para si porcentagens elevadas do valor gerado ao longo de uma cadeia global de valor. No Brasil, assim como ocorre na maioria dos países emergentes, grande parte das empresas se insere nas CGVs de forma subordinada ou, simplesmente, não se insere. Inserir-se de maneira subordinada tem as con- sequências negativas enumeradas anteriormente. Não se inserir significa deixar de se beneficiar do conheci- mento e da eficiência que podemvir junto coma impor- tação de bens e serviços, além dos ganhos de escala, aprendizagem e acesso a recursos que a exportação e outras formas de internacionalização podem oferecer. Por essas razões, muitos empresários, formuladores de políticas e acadêmicos defendem que o país precisa facilitar a participação das suas empresas nas CGVs. Por outro lado, a inserção nessas cadeias, alémde nemsem- pre propiciar a apropriação de parcelas interessantes do valor gerado, pode significar prejuízos para as empresas e atémesmo a eliminaçãode empregos, pormeioda con- corrênciaqueprodutosimportadospodemfazeraosnacio- nais. Esse posicionamento tambémpode fazer comque empresas brasileiras transfirampara o exterior recursos e atenção que poderiamestar sendo aplicados no Brasil. Otema é complexo e diz respeitodiretamente às ques- tões de política econômica que estão continuamente em discussão na imprensa e nas rodas de debate. Para que possamos posicionar-nos, de forma consistente, é impor- tanteentender o fenômenoeaspolêmicas a respeitodele. Cadeias globais de valor: o fenômeno A essência do fenômeno das CGVs é a alteração da dis- tribuição geográfica de concepção, produção, distribui- ção e consumo de bens e serviços. Cada vez mais, esses processos se dãopormeiode umfluxode transações que atravessa fronteiras e percorre complexa teia de opera- ções interligadas. A queda contínua dos custos de transporte e comu- nicação, a redução de barreiras à importação e a busca continuada por competitividade faz comque empresas, principalmente as corporaçõesmultinacionais, transfe- rirametapas da sua produção para países nos quais elas podem ser feitas commenor custo e melhor qualidade. O resultado disso é que uma parcela cada vez maior do que os países exportam seja composta de conteúdo importado. Pascal Lamy, que foi diretor-gerente daOrga- nizaçãoMundial do Comércio (OMC) entre 2005 e 2013, afirma que, há 20 anos, 20% do que um país exportava, em média, era importado. Hoje, esse percentual subiu para 40%. E, em 20 anos, chegará a 60%. Aforma como as empresas se inserem nasCGVs exerce cadavezmais influência nonível de renda e naqualidade de vida dos cidadãos de seupaís
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