RESPM-SET_OUT-2015-baixa

entrevista | Soraya Saavedra Rosar Revista da ESPM | setembro/outubrode 2015 48 Revista da ESPM — A participação do Brasil no comércio internacional não é compatível com as posições que ocupamos nos rankings de maiores economias do mundo: sexto ou sétimo lugar a depender do ano. Neste mo- mento, estamos andando para frente ou para trás nessa equação? Soraya Rosar — Este momento de crise traz uma oportunidade de aumentar um pouco a nossa par- ticipação no comércio internacio- nal. Mas, como você falou, nossa participação é pequena: em torno de 1% do comércio internacional. Isso é compatível com o tipo de país que é o Brasil. Uma boa com- paração é com os Estados Unidos ou com a China, países com mer- cados i nternos mu ito grandes. Nesse tipo de país, a tendência é de que a participação no comércio internacional seja menor. Isso não quer dizer que o Brasil não possa melhorar — pode e muito. Os Esta- dos Unidos são uma das molas do comércio internacional, embora a participação das exportações no total do PIB seja relativamente pequena, se você comparar com países menores, como a Holanda, que, por não terem um mercado interno tão grande, são obrigados a ir para os mercados externos. Revista da ESPM — Queria voltar ao início da sua resposta, quando você fala que este momento de crise talvez traga uma oportunidade de aumentar um pouco nossa participação no co- mércio internacional. É só por conta da desvalorização do real, ou outros fatores atuam em nosso favor? Soraya — A questão do câmbio é só um dos pontos. O outro é a pa- ralisação da demanda interna. O empresário brasileiro, no último pe- ríodo em que houve uma demanda interna muito grande, achava mais fácil vender aqui, no Brasil, do que no exterior. Partir para o comércio internacional requer não só uma especialização, mas também inves- timentos em preparação do produto e da equipe, tradução de embala- gem, estudo de características de mercados... Não é coisa simples. Neste momento, em que o mercado brasileiro está praticamente para- lisado, as empresas que já têm uma parte de sua produção voltada aos mercados externos, com certeza se sairão melhor. Revista da ESPM — Essa é aquela inserção, recorrente na nossa história, baseada na exportação de exceden- tes. Quando se tem um problema no mercado interno, faz-se um esforço exportador. Soraya — Eu concordo emparte, mas penso que agora, como esta crise é de mais longo prazo, quem for bus- car o mercado externo deveria ir já pensando, também, em balancear a sua produção. Para uma empresa que tinha 60% da sua produção voltada para o mercado interno e 40% para o externo, é mais simples inverter essa proporção. Esse tipo de empresa vai se sair muito melhor na crise. Esse balanço entre os dois mercados é o ideal. Você não fica refém só de exportações, nem do mercado inter- no. Na medida em que houver essa consciência por parte das empresas, a tendência é ir para o mercado ex- terno e continuar nelemesmo depois que o interno se recuperar. Revista da ESPM — Até que ponto, na sua avaliação, o Brasil está inseri- do nas cadeias globais? Soraya — Infelizmente, nós não estamos inseridos nas cadeias globais de valor. Há as exceções de sempre, um nicho ou outro, mas, de modo geral, estamos longe disso. O Brasil ficou voltado para dentro du- rante muitos anos. Se você pensar em termos históricos, a abertura do país se deu a partir dos anos1990. É pouco tempo. Então, nossa men- talidade ainda é voltada mais para dentro. No período em que o mer- cado cria a mecânica de buscar as partes de um produto no mundo todo, onde cada uma tem o melhor preço, nós ficamos de fora. Total- mente de fora. O grande boom des- sas cadeias se deu em todo o mer- cado asiático. Vimos a emergência de países como Malásia, Cingapura e Indonésia, entrando muito forte nesse tipo de cadeia. Nós estamos geograficamente distantes do local onde está o epicentro do comércio internacional hoje. Mais que isso, a diversidade da indústria no Brasil Partir para o comércio internacional requer não sóuma especialização,mas tambéminvestimentos empreparaçãodoproduto e da equipe, traduçãode embalagem, estudode características demercados...

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