RESPM-SET_OUT-2015-baixa
entrevista | Soraya Saavedra Rosar Revista da ESPM | setembro/outubrode 2015 50 Fomos ficando paulatinamente fora das cadeias globais de valor. O resul- tado nós vemos hoje. Rev ista da ESPM — Depois da abertura dos anos 1990, por que nos desinteressamos pelo mundo? Soraya — A abertura é recente. Então, as empresas se internaciona- lizaram há, aproximadamente, 25 anos. Isso, em termos de comércio internacional, é pouquíssimo tem- po. Acho que não é desinteresse. Nesses 25 anos, o que aconteceu foi que os custos do Brasil cresceram absurdamente. Desde a enorme car- ga tributária até os encargos traba- lhistas. Em países asiáticos o custo da mão de obra é bem menor que no Brasil. Nesse mesmo período, mesmo com todo o esforço que em- presas fizeram para ir lá para fora, fomos perdendo competitividade. Não foi uma opção não ir para fora. Revista da ESPM — Mas não se firma acordo tarifário importante desde 2010 — o que equivale a dizer que no governo Dilma não houve um só avanço nesse sentido. O comércio exterior está sendo negligenciado pelo governo, ou existiria uma decisão es- tratégica de não firmar acordos? Soraya — No governo Lula, houve a opção de dar maior ênfase à inte- gração Sul-Sul. Isso foi muito claro. São mercados potenciais, mas não são mercados dinâmicos hoje. Dos mercados já dinâmicos, sobretudo na Ásia, nós ficamos isolados. Não assinamos um acordo importante desdemuito antes do governo Dilma. Os últimos acordos assinados são limitadíssimos. O que firmamos, por exemplo, com a Índia cobre 400 pro- dutos num universo de mais de seis mil. Então, trazem pouca probabili- dade de ganhos reais. Enquanto isso, o mercado vai indo cada vez mais rapidamente na direção das cadeias globais de valor. Houve um investi- mento grande, da parte de governos brasileiros, na tentativa de apostar todas as fichas na Rodada Doha, da OMC, o que não estava errado. Nos fóruns multilaterais é que um país como o Brasil tem mais a ganhar, já que há mais trade-offs [barganhas] para fazer na negociação. O erro foi jogar todas as fichas aí. Revista da ESPM — Da parte do go- verno, parece haver um temor de que, ao investir no exterior, as empresas bra- sileiras acabem exportando empregos e capital. Esse medo faz algum sentido? Soraya — Não. Nós temos um estudo recente que faz a análise das empre- sas multinacionais brasileiras que investiram no exterior. Ele mostra que essas empresas aumentaram ainda mais as exportações do Brasil para o exterior. É um erro dizer que, ao ir para fora, você exportaria em- pregos. Ao contrário. Essas empre- sas cresceram mais aqui no Brasil e exportaram mais para o exterior a partir daqui. Muitas vezes, quando uma empresa cresce no mercado internacional, é praticamente obri- gada a internacionalizar sua pro- dução. Ela precisa ter uma fábrica No governo Lula, houve uma opção por dar maior ênfase à integração Sul-Sul. Sãomercados potenciais, mas hoje não sãomercados dinâmicos latinstock
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NDQ1MTcx