RESPM-SET_OUT-2015-baixa
entrevista | Soraya Saavedra Rosar Revista da ESPM | setembro/outubrode 2015 52 completava o rito interno todo. Vários deles estavam prontos para ir ao Con- gresso, mas chegou a virada do ano e, com ela, o início do novo governo Dil- ma. Eram os mesmos ministros prati- camente, a mesma presidente, mas o fato de ter se iniciado o novo governo exige que os acordos sejam revistos. É anedótico, mas 80% do problema são causados pela burocracia. Revista da ESPM — Qual é a mar- gem de manobra das empresas priva- das diante deste cenário? Soraya — Quanto mais tempo fi- carmos de fora, mais difícil vai ser entrar nas cadeias de valor. O desafio é conseguir uma melhor competitividade para o produto bra- sileiro. Enquanto não se obter uma solução para as questões tributárias e trabalhistas, dificilmente vamos conseguir entrar numa cadeia des- sas. Sabemos que, neste ano e no próximo, dificilmente haverá deso- neração dos produtos brasileiros, por uma questão de ajuste fiscal, porém, enquanto isso, pode-se ir negociando acordos. Não são nego- ciações simples. São negociações que levam anos. Revista da ESPM — O que dá para esperar no curto prazo em termos de internacionalização? Soraya — Nós podemos e devemos atuar bilateralmente e regional- mente. A América do Sul já foi um mercado no qual o Brasil era muito competitivo em produtos indus- triais. Nós perdemos muito espaço para a China e para outros países. Os demais países da América Lati- na, nos últimos dez anos, fizeram uma série de acordos com países de fora da região. Com os Estados Unidos e a União Europeia, onde agora entram em condições mais favoráveis do que o Brasil. Perdemos espaços. Temos de buscar nichos de mercado onde o produto brasileiro possa entrar de forma competitiva. Isso, lógico, não depende só do em- presário. Nós temos de ter ajuda do governo, sob a forma de uma redu- ção real do custo Brasil que as em- presas nacionais enfrentam hoje. Revista da ESPM — Mas, efetiva- mente, o que dá para esperar de con- creto nos próximos anos? Soraya — No curto prazo, talvez possamos avançar em negociações que vão gerar aumento da participa- ção brasileira no comércio mundial daqui a dez anos. Com os ajustes que têm de ser feitos internamente, as possibilidades de se diminuir o custo Brasil neste ano e no próximo são muito pequenas. Os custos vão continuar altos, se é que não vão aumentar. O que não podemos fazer é deixar de ir preparando o médio prazo nesses anos em que não se vai dar um salto real em termos de internacionalização. Foi isso que paramos de fazer nos últimos anos. Revista da ESPM — A visita da presidente Dilma aos Estados Unidos muda algo de relevante? Soraya — Muda. Já mudou bastante o clima bilateral com os Estados Uni- dos. Não se fala, ainda, em acordos comerciais, mas há uma série de acor- dos interessantes de busca de conver- gência regulatória que vão criando a base para um acordo futuro. Então, melhorou, não tenha dúvida. Revista da ESPM —Os EstadosUnidos estão em fase mais ou menos adiantada de negociações de acordos comerciais com a União Europeia e com a Aliança do Pacífico. Nós estamos de fora. Soraya — Nesses mega-acordos está sendo discutida uma agenda que antigamente só cabia na OMC. Uma agenda multilateral que gera nor- mas para o comércio internacional como um todo. Na medida em que a Rodada Doha não conseguiu ir para frente, os países não ficaram parados. Os Estados Unidos come- çaram a negociar com a área mais dinâmica do comércio, que é a Ásia. As regras todas que não se conse- guiu levar para frente na OMC estão dentro da TPP [Parceria Trans-Pa- cífica, na sigla em inglês]. Todos os temas possíveis e imagináveis. É uma questão bem mais abrangente do que simplesmente comércio. E isso está sendo negociado só entre aqueles países dos dois lados do Pa- cífico. Estão pensando em terminar essa negociação em 2016, quando irão começar a pôr isso em vigor. Perdemos espaços. Temos de buscar nichos de mercado onde o produto brasileiro possa entrar de forma competitiva. Isso, lógico, não depende só do empresário
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