Revista da ESPM

EDUCAÇÃO REVISTA DA ESPM | JULHO/AGOSTO/SETEMBRODE 2018 56 Vale mencionar umuso curioso do dinheiro público: “subornar” certos atores que podem sabotar as tenta- tivas de mudanças. Como exemplo, temos as nomea- ções de personagens indesejados para representações e outros cargos fora da linha decisória. No plano nacio- nal, valemencionar a indicação de Assis Chateaubriand para embaixador na Inglaterra. Com isso, JK (Juscelino Kubitschek) se livrou de um jornalista complicado. No fundo, vivemos um dilema. Precisamos de mais dinheiro bem gasto. Mas, e se a equação política do setor não permite isso? Sabemos o que é preciso fazer Nas vésperas das eleições que aprovaramDilmaRousseff para a sua primeira presidência, Jair Ribeiro encomen- dou, de dez educadores respeitados, uma lista das cinco prioridades para consertar o nosso ensino. Cabia então sintetizar as 50 propostas emcinco, uma tarefa hercúlea. Curiosamente, foi facílimo, dada a extraordinária convergência das proposições coletadas. A lição é clara. Dentre aqueles que se dedicarampor longo tempo a pen- sar pragmaticamente no que precisa ser feito, a lista de prioridades é muito semelhante. A conclusão é uma só. Já ultrapassamos ampla- mente a etapa em que cada um propõe um caminho diferente. Pelo contrário, há amplo consenso acerca do que fazer. Por que isso não acontece é o tema prin- cipal deste ensaio. No reinado do feijão com arroz Não são computadores, tablets ou internet de banda larga que irão resolver os problemas do nosso ensino. Nada contra o uso de tecnologia, pelo contrário. Con- tudo, o que fará a diferença é um “feijão com arroz” bem-feito. A seguir, uma agenda simples, até certo ponto, inspirada nas prioridades captadas pela iniciativa citada acima: • 1. Ênfase absoluta no domínio das Habilidades Básicas. • 2. Ensinarmenos, para que se aprendamais. Encurtar radi- calmente as ementas e reduzir o currículo obrigatório. • 3. Reforma séria e radical na formação dos professores. Eles têmde aprender o conteúdo daquilo que vão ensinar e apren- der a dar aulas. O presente sistema ensina teoria e ideologia demais e aplicação demenos. • 4. Reforma na carreira do magistério, com mais van- tagens para o desempenho e menos para antiguidade e diplomas. E também mais vantagens imediatas e menos na aposentadoria. Ainda mais importante é acabar com a vitaliciedade do emprego. • 5. Criar regras meritocráticas para a escolha de dirigentes. • 6. Reformar o ensino médio, reduzindo o volume de assun- tos tratados e promovendo uma real diversificação, de acordo compreferências individuais e planos futuros dos alunos. Esta agenda apenas ilustra o que precisa ser feito. Está citada aqui para tornarmais concretas as ideias. O que ensinar para a Sociedade 4.0? Umdos temas damoda é a revoluçãonomercado de traba- lho,comachegadadaInteligênciaArtificial,dosrobôsmais competentes, dosBigDataedemuitosoutrospaetês tecno- lógicos. Segundo previsões cataclísmicas, osmercados de trabalho serão destroçados e haverá dramáticas transfor- maçõesnas competências requeridas. Como já se disse, previsões são muito difíceis de serem feitas, sobretudo quando se referem ao futuro. Nenhuma das que circulamparece irrelevante ou equi- vocada. Mas sabemos pouco do ritmo, profundidade e geografia do que virá. Finlândia, Coreia ou Estônia têmde planejar a reforma doseuensino, preparando-separaumaEconomia4.0. Que novosmodelosprecisamimplementar? Porémoquadrobrasileiroparecebemmaissimples,pois estamosemumestágiobemmaisatrasado—equenãopode sersaltado.Portanto,apreparaçãodamãodeobranãoparece tão fantasmagórica no caso brasileiro. Isto porque não dá para fazer ocomplicadoantesde acertar o simples. Oensinomédio brasileiro triplicou seus gastos per capita , mas o número dematrículas não cresceu e o nível de aprendizado estagnou

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