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Gorilla - a ontogênese de um Grand Prix 106 R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 Como diz Syd Field, o filme é uma história contada por imagens. Ima- gens em movimento, é claro. Juan Cabral não se preocupou em contar uma história. Ele buscou o fragmento de uma história, algo inusitado e ma- ravilhoso para que a lente capturasse e envolvesseoespectador.Deuma forma clássica, ele inicia o comercial como se fosse apresentar uma produção cinematrográficaparaocinema, ouaté para o cinema feito para aTV. Sugere- se, pelo letreiro, que, aquilo que se verá, é uma produção, portanto filme, de uma produtora chamada “A Glass and a Half Full”, letreiro branco que surge sobre um fundo indefinido roxo cortado por uma linha mais escura no canto esquerdo da tela. Simultanea- mente, começa a trilha que percor- rerá e pontuará todo o comercial, o trecho inicial de “In The Air Tonight”, de Phil Collins. Essa trilha deveria ser facilmente identificada pelo especta- dor, pois é uma música que foi hit internacional em1981, ficandomuito tempo em evidência e, diretamente ligada ao seu criador.Aliás, essa é uma característica dos principais comer- ciais criados por Cabral, como todos os criados para o TV Bravia da Sony: Balls utilizou a música Heartbeat de José González; Play-Doh, She’s a Rainbown, Rolling Stones. Voltando para o comercial, a câmera desloca seu ponto de vista com um travelling da esquerda para a direita, introduzindo uma presença estranha. Pêlos muito escuros e olhos. A visão da cabeça de um macaco vai se for- mando. Apenas parte é mostrada, mas o repertório visual da audiência deve completar o todo. A câmera parece vacilar, possuindo vida própria, denun- ciando o uso da câmera subjetiva. Há umcorte eogorila é reveladoemplano médio. Essanova tomada, rapidamente resgata, da audiência, a identidade adormecida dos filmes King Kong, que se serviram de um superclose-up dos olhos antes de revelar o tamanho da fera.Otamanhodescomunal das forças danaturezaque, nofinal, sempre serão dominadas. Pois esta é a função do homem, modificar a natureza. Amúsica vai pontuandoos pensamen- tos de nosso gorila, quase como uma legenda universal, enquanto o uso da câmera subjetiva nos coloca bemperto de suas memórias. Um corte de cena, e mais próximos estamos das imen- sas narinas negras. Elas se contraem, alargam e inspiram para receber a inspiração que vem com o ar da noite. Noite habitada pelos arquétipos, pelo Id, pela ausência de freios. Os olhos são tristes e distantes, talvez sonhem com a floresta perdida. Ou então, com aquilo que está chegando e foi tão esperado. Na letra da música, algo mais transparece “I can feel it coming in the air tonight, oh Lord. I’ve been waiting for this moment, all my life, oh Lord.” 4 , esse pedido de algo que está CORTE RÁPIDO, A CÂMERA MUDA SUA POSIÇÃO E REVELA SUA CABEÇA ONDE UM HEAD- PHONE MINÚSCULO CHAMAA ATENÇÃO. GARON MICHAEL É O NOME DA “ALMA” DO GORILA. NASCIDO EM LOSANGELES, ELE NUNCAMOSTROU SEUROSTONASPRODUÇÕES EMQUE PARTICIPOU.CONSIDERADOUMESPE- CIALISTA, GARONACHA QUE SER UM GORILA É SUA SEGUNDA NATUREZA, ALÉMDE PAGARAS CONTAS. ELEATU- OU EM CONGO E INSTINTO, DUAS PRODUÇÕES DE HOLLYWOOD. A FANTASIA USADA NO COMERCIAL PESAVA 25 KG, SENDO QUE FORAM FEITAS QUARENTA TOMADAS DE NO- VENTA SEGUNDOS CADA, ATÉ QUE O DIRETOR ESTIVESSE SATISFEITO.
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