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Heraldo Bighetti Gonçalves 107 SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M chegando é endereçado a Deus. Seria o mesmo Deus que expulsou Adão e Eva do paraíso? Seria o paraíso a natureza onde a harmonia entre as espécies existia antes que o roubo do fruto do conhecimento expulsasse aquela espécie que somos nós? Nada disso importa para o gorila. Novo corte e o plano revela, em meio primeiro plano, novamente a figura majestosa do símio inspirando profun- damente e aguardando. O espectador, viaolhodacâmera, sente-secomouma testemunha de algo grandioso que irá acontecer. O filme parece agora um documentário, dessesquehojeestamos acostumados a ver nos canais a cabo, como Discovery e National Geogra- phic. Somos cientistas perscrutando a intimidade desse nosso primo distante, que a genética trouxe para tão perto de nossa soberba. O travelling continua e, novamente, a câmera se aproxima, a tal ponto que o gorila sente sua presença, a nossa presença, e esboça um grunhir. Inau- dível mas visível pela contração da boca, tentando afastar quem o inco- moda na sua concentração. A câmera se afasta, agora revelando que o gorila está em um estúdio de gravação de som, sentado com uma bateria à sua frente. Rapidamente, entendemos o que irá acontecer. Ao menos a quem conhece bem o desenrolar da música. O gorila ainda faz um gesto com os ombros, típico do baterista que pratica um alongamento antes do grande es- forço que virá. Uma última inspiração profunda e, no ponto exato, a bateria é tocada em êxtase acompanhando a música. Corte rápido, a câmera muda sua posição e revela a sua cabeça onde um headphone, minúsculo, chama a atenção. Mais dois cortes são feitos, sempre em movimento, afastando e aproximando o selvagem músico. Um último e definitivo travelling de afastamento revela todo o estúdio de gravação, deixando para trás a incrível visão do “Phill Gorila Collins” em seu instante de fruição total. Estepequeno fragmentodeumahistória fantástica utilizou enquadramentos que nos colocaram bem próximo do personagem. Na maioria são primei- ros planos, próprios para descrever a emoção e não a ação. Como ação, só temos oúltimoplanoque revelanão só o ato de tocar a bateria, como do lugar incrível para umgorila estar. Conforme descrito acima, a câmera subjetiva nos coloca próximo ao personagem, mais do que isso, conforme Renato May es- clarece “Na representaçãopsicológica, outra tendência mais profunda é cons- tituída pela possível subjetividade do enquadramento e dos movimentos de câmera. Já não nos contenta mais que o espectador observe a ocorrência objetivamente: transportando seuolhar, no plano psicológico, com o olho da câmera, fazemos comque veja através dos olhos dapersonagem”.Neste caso, somos também levados a participar da cena, fato evidenciado pelo gorila que esboça uma reação à presença da câmera. Continua May, “Queremos que a participação emotiva do espec- tador seja mais direta: é o próprio es- pectador quem, a certa altura, torna-se em protagonista da ocorrência”. Vemos o gorila, ou somos o go- rila? Como nas várias versões de King Kong, a natureza foi chamada a participar como atriz principal desse pequeno mito modernista. Transmutada no primata, nossa na- tureza primeira já não assusta. Não é imenso na altura a ponto de subir o Empire State. Nosso gorila sobe de elevador como qualquer um de nós. A natureza já não amedronta pelo porte, mas faz barulho. Ou música transgressora, o rock. O primeiro instrumento foi o de per- cussão, paródia que existe no início do filme de Mel Brooks “A história do mundo – Primeira Parte”. Nosso coração percute o ritmo da vida. E um copo emeio cheio de leite é o produto que o comercial deseja vender. O leite que no Brasil já teve sua versão pu- blicitária nos comerciais da Parmalat. Porque somos todos mamíferos, dizia o slogan. Arquétipos à parte, o gorila Cadbury 5 é mamífero. Pode não ser o caso desse comercial criar uma identidade que será admi- rada e reproduzida. Mas de fornecer uma moderna fábula, cuja moral é: solte sua alegria animal, inspire-se no passado e agradeça a Deus por estar vivo. A natureza ainda vive, pequena. Frágil? Ou, como podemos ver no comercial, ainda passível de uma demonstração de força. INOVAÇÃO. EVOLUÇÃO. REVOLUÇÃO. Chega o momento de mudar a abor- dagemde nossa análise, para entender as questões que envolvemo campo da produção deste comercial. O criador do comercial Gorilla, Juan Cabral, o concebeu quanto idéia e o dirigiu, junto com uma série de profissionais especialistas que também pertencem ao campo da publicidade, mas, também, podem ser detentores (como o próprio Cabral) de realizar obras não tão funcionalistas.
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