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Mesa- Redonda 112 R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 JRWP – Já que as mulheres estão em maioria, gostaria de que uma delas desse início ao debate. NIZIA – Eu não “trabalho com moda”, exatamente, pois parti- cipo mais do grupo da sociolo- gia, até filosofia; minha primeira formação é literatura. O processo de subjetivação, que o Prof. Gra- cioso expõe, todos esses valores que estão florescendo, mudando – comenta-se que todas as clas- sificações em cima de etnia, gê- nero estão mudando – justamente, os valores agora estão sendo postos sobre consumo, numa sociedade pós-industrial. Essa é uma questão: “o consumo pode representar, pode nos dar sinais sobre a dignidade, credo, caráter de uma pessoa”? A Antropologia do Consumo ocupa-se disso e está sendo importante para estabelecer esse estilo de vida, que as revistas vão se apropriar e lançar, propor o que consome, como é a hierar- quia dos valores ou – o que é mais importante – a nova tecnologia de ponta ou um outro valor mais necessário, sedimentado. Eu po- deria, mais tarde, falar um pouco dessa mudança, dessa integração da moda com o contexto sócio, político e econômico, nas déca- das de 1950 a 2000, que foi um trabalho que fiz. JRWP – O tema do seu livro “A Edição do Corpo” 1 . AMÁLIA – Acho que as mudanças na sociedade foram, principal- mente, provocadas pelo novo comportamento da mulher. Eu acredito que a família é o esteio da sociedade e que a mulher é o esteio da família. Há quem diga que “quando você educa um homem, você educa um homem, quando você educa uma mulher, você educa uma família toda”. Se isso ocorre, a influência da mulher dentro da sociedade e no comportamento voltado à moda, é diretamente proporcional ao crescimento que ela tem. Eu atuo no mercado de cosméticos, e cosméticos, na minha visão, caminham lado a lado com a moda, porque têm a ver com tendência, com uma amplitude mais abstrata... JRWP – O que é um cosmético? AMÁLIA – É um produto que pro- mete a você tornar-se melhor em relação a si mesmo e aos outros. JRWP – De aparência? AMÁLIA – Até de sentimento. Um perfume, por exemplo, é muito mais do que simplesmente uma fragrância; ele leva todo um mun- do lúdico para dentro da pessoa e ela se sente melhor, maior, mais poderosa, mais capacitada. Hoje, a mulher está no mercado de tra- balho e cerca de 10% do dinheiro dela, de todo o seu salário, é uti- lizado para comprar cosméticos. Isso vem acontecendo lentamente, e hoje, no caso de cosméticos, somos o terceiro maior mercado do planeta – e em breve vamos ultrapassar o Japão e ficar atrás apenas dos Estados Unidos. Esse é um fator econômico que merece atenção, já que a moda, até onde entendo, gera milhares de em- pregos, e um movimento enorme tanto de importação quanto de ex- portação. Mas o que estou queren- do dizer é que essa mudança de atitude da sociedade em relação à moda e comportamento advém de uma transformação de dentro para fora, que vem do lar – esse lar, com marido e filhos – dali desabrocha alguma coisa, que podemos ten- tar encontrar aqui qual é. Eu não tenho a resposta pronta. JRWP – Você e a professora Nizia estão em terrenos bastante diver- sos. Mas essa moda, esse com- portamento, que o pessoal da área de marketing usa para segmentar, para classificar, para lançar uma revista ou um programa, criar as classes de consumo, é um input para eles, mas, ao mesmo tempo, a influência que os meios de comunicação exercem – a publi- cidade, a comunicação – também é formadora de opinião e define comportamentos. Como é essa via de mão dupla? LUCIANA – O nosso negócio tem a ver com um produto que não tem nada a ver com moda, que é motocicleta. JRWP – Da marca Harley-Davi- dson... LUCIANA – Nós trabalhamos com nove marcas, no Brasil, todas premium . Mas nenhuma delas fica somente no âmbito do produto. O que vendemos, na verdade, é um estilo de vida. Quando a pessoa compra uma dessas motocicletas, na verdade, muda a forma como se veste,
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