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Moda e estilo de vida 113 SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M passa a participar de um grupo de pessoas, no qual quer ser reconhecida daquela forma. Isso para nós fica cada vez mais claro: como é que você “pertence” a uma classe social, a um grupo de amigos ou de determinada roda, tem muito a ver com o que você acaba vestindo. Nós acabamos criando uma proposta de trabalho diferenciada em relação a nossos consumidores. Acabamos dividin- do nossa linha de produtos – e a nossa comunicação, os nossos eventos – de três formas. Tínha- mos um consumidor “entrando” na marca, que era mais “light”; e outro consumidor que era aquele clássico Harley-Davidson, e para esse, sim, a moto faz parte da sua vida e chega a tatuar o corpo para que seja percebido em qualquer momento do dia ou da noite, em qualquer situação; e temos também um outro que exige o design. As comunicações são fei- tas de maneiras diferenciadas e a forma de se vestir também. É uma comunicação muito envolvida no jeito de ser, no estilo de vida... JRWP – Paulo, você que trabalha com pesquisa, quer ajudar a dar uma organizada nisso? PAULO – Se a moda existe tam- bém como reflexo da sociedade, numa sociedade multifacetada, a moda será também multifacetada. Harley-Davidson será moda, para um determinado segmento de público e BMW será moda para outro público, radicalmente dife- rente. Em cosméticos e perfumaria – você tem a possibilidade da pessoa se travestir com diferentes identidades, por meio de tipos dife- rentes de cosméticos ou perfumes. Numa sociedade onde os valores são multifacetados, pode-se “estar na moda” em estilos, completa- mente distintos. A sociedade em que vivemos aceita os múltiplos indivíduos convivendo juntos. Esse é um aspecto que me parece importante para que não coloque- mos a moda como uma tendência única para o todo. Hoje, fala-se até do “jeito de ser”. A moda já não existe. Pode-se estar na moda com diferentes personalidades, diferentes jeitos de ser, desde que se tenha autenticidade naquele modo de ser. E as tendências que aparecem continuam sendo múl- tiplas e distintas. GRACIOSO – Nesse con- texto, a moto, a paixão pela motocicleta, é uma expressão de identidade que leva à moda ou é a moda, propriamente dita? PAULO – Na questão da moda, ou existe um grupo que tem ade- rência àquele tipo de valores e ela pega, ou não existe o grupo e ela morre. As eleições do Collor e do Lula são excelentes exemplos. Em um dado momento, Collor foi o repre- sentante da vontade brasileira de modernidade, de quebrar com as estruturas arcaicas e foi eleito; no momento seguinte, a sociedade demandando transformação, há inserção social e há o oposto. Cin- co anos depois poderá haver um oposto de um Lula sendo eleito. Parece-me que atribuir à moda o caráter dominante, como se ela fosse uma entidade suprema, pairando sobre a sociedade, capaz de determinar a direção a seguir, na minha perspectiva ela não é isso, ela é um reflexo... “O PAÍS DE HOJE É MAIS CULTO, MAIS LIBERADO, NO BOM SENTIDO.”

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