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Moda e estilo de vida 115 SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M mente indiferenciado, de massa, e conseguindo chegar a pequenos grupos e deixar essas pessoas mais contentes e felizes... CLÁUDIA – Não sei se é “mais feliz” não, acho que é muito mais infeliz. Essa demanda incessante produz uma enorme, uma gigan- tesca infelicidade, acho que não tem nada de alegria. MÁRIO – Mas eu estava olhan- do pelo lado mercadológico e econômico, que é muito interes- sante; até muito gostoso e bonito. Um marciano que chegasse e ouvisse, diria que a sociedade deste planeta evoluiu muito nos últimos vinte ou trinta anos. GRACIOSO – Mário, você sabe, até a Segunda Guerra, a bebida da moda era o conhaque: era chique degustar um conhaque naquele copo tradicional; de repente, os americanos ganharam a guerra e o resto do mundo passou a beber uísque. O uísque dominou o mundo durante duas gerações. Mas, naquele tempo, talvez, o mundo fosse muito mais simples, mais homogêneo... Seria possível algo parecido, hoje, no mundo multifacetado de que fala o Paulo, um fenômeno que repetisse a subs- tituição – de um só golpe, de uma bebida por outra? MÁRIO – A pergunta é dirigida a mim? Talvez o Paulo – que lida com pesquisa – possa dar alguma informação mais fidedigna, porque não faço idéia... CLÁUDIA – Um fenômeno pare- cido foi a matança do cigarro... JRWP – Ou o advento do politica- mente correto. De repente não é nem conhaque nem uísque; é não consumir álcool. CLÁUDIA – Eu sou ex-fumante – mas vejo um movimento de exterminar da face da terra um produto e uma categoria... JRWP – Querem matar o cigarro ou os fumantes? CLÁUDIA – Acho que os dois. JRWP – Há um ótimo artigo do José Roberto Guzzo, na Veja desta semana; está dizendo que querem matar os fumantes. CLÁUDIA – É a única coisa atual que eu vejo parecida com uma grande campanha mundial de “adeus conhaque, vamos todos beber uísque”. GRACIOSO – O que você diz, de certa forma, contradiz a ob- servação do Paulo: o mundo não seria tão multifacetado assim. PAULO – Não vejo mais a possibi- lidade de um produto ter esse caráter de universalidade nem a menor chance disso ocorrer – os Omos e as Coca-Colas da vida tiveram a sua época. Só se tivéssemos uma he- catombe social, que destruísse por completo a estrutura da sociedade e, a partir daí, criar-se-ia a possi- bilidade de renascimento de uma nova sociedade e, nessa sociedade, surgisse um novo tipo de demanda universal... Aí talvez sim. AMÁLIA – Queria falar de produ- tos sob o ponto de vista do não tangível. Por exemplo, ser po- liticamente correto quanto à preservação do meio ambiente. É feio você chegar numa mesa como esta e dizer que faz coisas erradas, como usar o saquinho de plástico do supermercado – talvez 99% da população ainda use – não é de bom tom; o que está na moda é dizer que se usa sacola ecológica, porque, todo mundo hoje, quer ser ecologicamente correto. Eu pergunto, então, por que o filme “O diabo veste Prada” fez tanto sucesso – e em todos os lugares? A outra pergunta é: por que a pessoa que trabalha com moda, principal- mente em relação à roupa, não se permite entrar nessa massificação? A Gisele Bündchen, quando está desfilando, é um fenômeno, mas quando você a vê andando pela rua como uma pessoa normal – ela está um trapo humano – as calças são rasgadas, ela se nega a ceder ao que a moda estabelece. Onde está o meio-termo? Juntando o que o mestre Gracioso e o Paulo Secches falaram, a sensação que tenho é que existe alguma coisa que acon- tece como a “ôla”, aquela onda que passa e avassala a sociedade e, se você se nega a entrar nela, fica de fora e aí entra a história do “pertencer”. O ser humano está infeliz porque está faltando alguma coisa interna. Todo dia há alguém pedindo mais coisas do que você consegue apresentar, quem está trabalhando está infeliz no seu trabalho, quem não está trabalhando está infeliz porque não tem trabalho. Esta situação não é privilégio de uma classe A ou B; é generalizada. A moda entra – na minha visão – para que a pessoa possa fazer também

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