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Valéria Brandini 41 SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M exceção, ou seja, conforme Lipovetsky (2005), a categoria de objetos, o verda- deiro luxo, acessível, apenas, às classes mais abastadas, às grandes fortunas. Em “Cultura e razão prática” (1979) Marshall Sahlins defende a idéia de que a sociedade capitalista ocidental, ori- entada pela racionalidade econômica, como que desprovida das dimensões culturais e do simbólico, constitui, na verdade,por simesma,uma formaespe- cíficadeordemcultural, poisouniverso daproduçãoedoconsumoconstituem, pormeiode suas estruturas econômicas e sociais, produção simbólica desta sociedade. Vemos, portanto, que não apenas as sociedades ditas “exóticas” sãoprovidasde sistemasde significação que orientam sua dinâmica social, mas a dita racionalização econômica en- gendra sistemas de valores que passam a ordenar a sociabilidade e tornam-se representáveis por meio das atividades “racionalizantes” de produção e con- sumo de bens, produtos, que, hoje em dia, são muito menos funcionais e muito mais representações simbólicas deestratos sociais e relações verticais de poder, servindo ao antropólogo como bons para pensar a sociedade em que circulam. A obra Lives in Trust: The fortunes of dinastic families in late twentieth-century América (1992), escrita pelo antropólo- go George Marcus, é um exemplo de pesquisa antropológica a constar como referênciateóricaparaumaanálisedesse sistema de significação, pois investiga a relaçãoentre racionalizaçãoeconômica esistemassimbólicos–passando,devido ao seu objeto de estudo, pelas relações familiaresnasclassesmaisaltas (nocaso, dinastias), nos Estados Unidos. Marcus propõe uma conceituação mais sóbria acerca da cultura e organização da fortuna dinástica na história recente da América, umaverdadeiracategorização cultural das famílias dinásticas. Ele res- salta que uma dinastia, em particular, é tantoumobjetode desejoda classemé- dia, como é, literalmente, uma família. “Compreender os padrões de gasto das dinastias, relacionado à sua história pes- soal e humana, como eles entram em contradição e como mudam, poderia dizer sobre as variações entre dinastias e dar contexto às suas idiossincrasias e excentricidades no interior das dinas- tias familiares – da excessiva miséria à excessiva generosidade.” (MARCUS, 1992:110 – minha tradução) A dimensão simbólica do “gasto”, conforme Marcus, mais propriamente do consumo, pode ser pensada como prática de representação das estruturas de significação, não apenas das famílias abastadas, mas da sociedade capitalista –este,elemento-chavenestaabordagem, pois o consumo de luxo é em muito orientado por referenciais de valores de classe que passam por gerações e gera- ções de famílias abastadas no Brasil. Consumir constitui uma prática ritual que representa a organização social e o universo simbólico dessas sociedades, pois a forma de aquisição destes revela elementos fundamentais do habitus de determinadas classes sociais.Vemos em Bourdieu que é o capital estatutário da origem que permite o maior acesso à aprendizagem cultural (BOURDIEU, 1979: 70). O capital cultural é incorpo- radopor gerações anteriores, e é, assim, transmitido ao “novato”, ou à criança, como parte da vivência familiar e do código de valores destas, permitindo a este indivíduo “começar das origens”. Assim, o gosto pelo refinamento, pela produção cultural elitizada e, final- mente, pelo luxo, nasce da maneira mais inconsciente e mais insensível, porque é parte do habitus das classes sociais poderosas. O luxo tem, portanto, sua função social e seu valor estatutário como elemento de categorização de grupos sociais; esta função, a de evidenciar a posição social do consumidor, não apenas a possibilidadedoconsumo,mas a forma de aquisição e a utilização do bem simbólico, oquedenotaa suacondição social, sua distância em relação às ne- cessidades primárias e possibilidades de aquisição de bens materiais e sua disposição “natural” em reconhecer o valor simbólico do produto de luxo e usufruí-lo como um connaisseur . Contudo, na atualidade, em meio às manipulações domercadoemudanças emcertos valores e ideais de “virtudes”, a idéia de luxo (em meio ao senso comum), no mercado, parece ter-se “desprendido”douniversodoconsumo deprodutos raros e inacessíveisqueevi- denciamadisposiçãoestética (quecon- forme Bourdieu não pode ser adquirida senãosobcertascondiçõeseconômicas,
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