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Derrick de Kerckhove 47 SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M vez, numa conferência, em Roma: “Encontrava-me na África do Sul e lá vi alguém que, remando do vilarejo onde vivia em direção ao porto, ao mesmo tempo, carregava seu celu- lar. O homem teria, então, energia suficiente nas baterias para ligar e descobrir quais os preços de venda dos pescados no mercado. Tendo esta informação, não se deixaria “en- rolar” tão facilmente ao chegar ao mercado. Ele estava negociando... JRWP – Será que – devido à in- fluência de McLuhan – não pas- samos a enfatizar demasiadamente o meio em si, ao invés de levar em conta as pessoas que o ladeiam. Estas não mudaram nos últimos 100 mil anos? DERRICK – Mas todo meio de comu- nicação poderoso muda as coisas, levanta a questão de uma nova ética, um novo comportamento social. A separação entre a Igreja e o Estado – que foi fundamental para a cons- tituição das democracias liberais – ocorreu após o Concílio de Trento, logo após a invenção da imprensa escrita, porém não sem tremenda re- sistência de parte da velha ordem. A eletricidade “deu um tapa” nomundo com duas grandes guerras mundiais: as eras do telégrafo e do rádio. Hoje em dia, houve uma mudança de ta- lentos e capacidades. A eletricidade globalizou cada um de nós, seres humanos, da mesma forma como o telefone celular. O instrumento de reação aos meios de comunicação é o terrorismo, por atos que afetam a todos simultaneamente. JRWP – Terrorismo? DERRICK – Emumambientede comu- nicação generalizada, o instrumento de guerra é o terrorismo. É a forma moderna de Inquisição. É a expressão inflamatória da explosão do próprio planeta e da globalização do destino de cada ser humano; e, claro, trata-se de uma comparação entre ambos. As- sim, a ética de uma cultura globalizada repousa sobre a informação “aqui e agora”. Talvez, no campo da Física, isto seria denominado de forças de ligação fracas. A “atitude politica- mente correta” é uma das forças fracas na ética transcultural, transnacional.A resposta do ambiente, a preocupação (o grau de consciência) quanto à resposta que o ambiente despertou no início da década de 60. Você se recorda de BertrandRussell?Ofilósofo das “marchas” – contra as bombas, contra a deterioração ambiental... isso teve início nos anos 60. Foi uma época extremamente tardia – quanto à evoluçãodaespéciehumananoplane- ta – para que os homens chegassem a inquietar-se sobre as conseqüências de seus atos, das agressões aomeio ambi- ente.Apesar do “inconveniente” desta verdade, a ética tem-se desenvolvido de forma globalizada. JRWP – Hoje – na conversa com os nossos professores – você men- cionou algo interessante: disse que tem duzentos amigos íntimos... “NO CANADÁ, VINTE E CINCO POR CENTODA POPULAÇÃONÃO CONSEGUEM LER SOBRE ALGUM ASSUNTO MAIS DENSO.” O CANADENSE SAUL BELLOW Nobel de literatura 1976 Photo provided by permission of Keith

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