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Entrevista 54 R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 uma infra-estrutura emfuncionamento, incluindo comunicações, rede, trans- porte, regulamentações etc., e, acima de tudo, a transparência quanto às transações feitas, ou seja, poderíamos confiar no governo, aquilo que Pierre Levy chama de equilíbrio... JRWP –PierreLevy, oautor da Inteligên- cia Coletiva ? DERRICK – Sim, ele fala de simetria entre acesso às informações de parte dogovernoedapartedoadministrador. Há várias condições que poderiam criar um“governo sobmedida”. Ainda contaríamoscomconsulados, embaixa- das, relações internacionais etc., mas, ao invés de elegerem representantes (câmara e senado) para que tomem decisões por nós, as pessoas teriam de acompanhar o que está acontecendo comrelação às questões da sociedade. Ao invés de governantes permanentes, telefonaríamos ou os convocaríamos quando houvesse um problema can- dente a resolver, comona IdadeMédia, quando seconvocavaoColegiadopara decidir sobre alguma matéria. JRWP – Na praça do mercado... DERRICK –Sim. Eoutracondiçãoéque amaioria dopoder estaria concentrada na esfera local, municipal, e não nas mãos dogoverno federal.Opoder legal seria da égide federal e mundial que eu preferiria chamar de Administração Global, ao invés de governo. JRWP – Você está, na verdade, fazendo futurologia. DERRICK – Estou em busca de uma saída e entrevejo dois caminhos: o das “forças fracas”, que já descrevi, com a sensibilidade transcultural, a arte globalizada, parar de fumar, estar politicamente correto, estas jovens mulheres brasileiras que decidiram não comer carne para poupar os rebanhos; tudo isto, a que intitulei de “forças fracas”. JRWP – Esta denominação foi criada pelo professor Gianni Vatimo. DERRICK – Sim, ele me inspirou pro- fundamente em “Il pensiero Debole”. Mas há fatos que também constituem forças fracas. Omuro de Berlim caiu graças a forças fracas, débeis. A Revo- lução, no Brasil, foi, provavelmente, uma força fraca. Alguém morre e, durante a noite, decidem-se como as coisas funcionarão a partir de então. Há forças fracas que apresentam conseqüências fortes, certo? Acredito que esta seja uma vertente. A outra consistiria no “governo sob medida” e, ao invés de impor uma ideologia e uma infra-estrutura altamente pe- sada, na verdade, uma superestrutura nacional ou planetária, teríamos, ao invés, uma estrutura altamente eficiente quanto aos serviços e à administração e o governos, que seriam efetivamente de esfera local. As pessoas de determinada cidade lidariam com todos os assuntos que fossem necessários. Nos momentos de crise, aplicar-se-iam às estratégias de Gerenciamento de Crise. JRWP – As pessoas entram para a política porque estão em busca do poder, querem enriquecer etc., querem vantagens pessoais... Nesse novo sistema, por que as pessoas quereriam entrar para a vida pública? Estas motivações não mais existiriam no seu sistema. DERRICK – Isto já é outra história, que requer força e transparência – prin- cipalmente esta última – ainda que, nem sempre, ela reverta em benefício para os administradores. Em Uttah Pradesh, na Índia, o governador quis combater a corrupção, e investiu um montante relativamente modesto num equipamento que permitia a ligação entre escritórios e o acompanhamento das transferências de recursos finan- ceiros em seu estado. Ele conseguiu recuperar os investimentos, fez cessar a corrupção significativamente emvárias áreas e ainda conseguiu limpar alguns departamentos.Nãoconseguiudepurar tudo,mas fezumbomtrabalho.Apesar disso, não conseguiu se reeleger ... JRWP – Isto é um exemplo de novos meios de exercer a democracia. DERRICK – Sem dúvida. JRWP – Mesmo com a tecnologia atual, já não haveria necessidade de eleições a cada dois e quatro anos... DERRICK –Uma deminhas conferên- cias foi dada em San Marino, uma pequena república de trinta mil pes- soas, perdida entre Rimini e Bolonha. San Marino possui uma das constitui- ções mais antigas (muito bem escrita, aliás, por doze famílias). A cada seis meses, um representante de cada par de famílias é reeleito. Ogovernomuda a cada seis meses e, muitas vezes, são pessoas de partidos opostos, famílias ideologicamente conflitantes. É fantás- tico. Mas é evidência de que a minha idéia de “governo sob medida” é má. Funciona! Em outras palavras, para que possa haver troca de governo a cada seis meses, é preciso haver uma infra-estrutura muito estável.

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