Capa2.indd
Derrick de Kerckhove 55 SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M JRWP – Boa idéia. Creio que cobrimos a pauta toda. Há algomais que gostaria de acrescentar? DERRICK – Tenho tratado, nas minhas palestras, das “três fases” da responsa- bilidade social. Numa primeira – em que a comunicação da sociedade é, basicamente, oral – o indivíduo é res- ponsável perante a sua família e o clã, pessoas com quem você tem contato físico. Se alguma coisa der errado, ele passa vergonha diante da tribo. Na segunda fase, começa a surgir a responsabilidade perante o grupo. A família continua lá,mas você senteque deve satisfações a toda a comunidade. É quando aparece a culpa... ou um sentimento de culpa. Agora, quando você vive numa socie- dade em que pode estar ligado a toda a humanidade, todo o resto do planeta – através do seu telefone celular, por exemplo–os sentimentos jánão sãode vergonha e culpa, mas surge omedo, e algo mais abrangente, uma espécie de consciência coletiva. JRWP –Minha mulher fez uma tese de doutorado, onde afirma que, no futuro, teremos de ser obrigatoriamente éticos – pois não haverá outra escolha. DERRICK – Concordo inteira- mente. Será exatamente assim. Está começando a delinear-se uma nova ordem ética. Estamos visivelmente atingindo um estado de maturidade existencial. JRWP – Boa expressão, esta. Algo mais? DERRICK –Teria ainda a dizer sobre alguns livros que estou escrevendo com vários colaboradores, pelo mundo. Em um deles, tratei da era dos tags (etiquetas); estamos estudando a idéia de, um dia, transpor o que temos em nossa mente diretamente para algum tipo de suporte externo... Mas talvez não tenha tratado suficientemente do ponto de ser. Isto seria a coin- cidência entre a origem dos meus pensamentos (cogito ergo sum) e a origem de meus sentimentos, de minha presença no mundo. Isso advém de estarmos tão dispersos, pela internet, Skype etc., que só há um ponto de referência central: o nosso corpo. O corpo físico torna- se o principal ponto de referência do indivíduo, agora ligado a todo o planeta, pela eletricidade, ao alcance físico e psicológico de todos os demais membros da so- ciedade. Esta relação, eu denomino de tantálica – é sobre isso que versa uma das obras. É uma área que estou explorando, com outros 8 colaboradores, inclusive uma brasileira, que mora na Espanha – a Cristina Miranda de Almeida. E sem esquecer, também, o professor Massimo di Felice e o seu grupo, aqui no Brasil. JRWP – Muito obrigado. “...A LAGARTA NÃO SEI, MAS A MIM, DÓI.” ES PM Harry van der Veen - 2004 1. “ODicionáriodas Idéias Recebidas” (O Dicionário dos Clichês), de Flaubert. 2. “É a verdade”; é “tudo de bom”, em duas traduções, uma mais literal e outra mais moderna. NOTAS
Made with FlippingBook
RkJQdWJsaXNoZXIy NDQ1MTcx