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Indústria da moda de luxo 58 R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 “ ... o gosto não é inocente e nem sua manifestação pública é livre de con- seqüências: serve para mostrar a que grupo o indivíduo pertence e, sobre- tudo, a quais outros ele não pertence. Serve igualmente para delimitar qual o grau de originalidade e de destaque que ele deseja ter dentro de seu próprio agrupamento. Ou seja, é uma manifestação individual e coletiva ” (Sá Earp, 2002, p. 54). Uma vez admitido que o gosto reflete o pertencimento a um deter- minado grupo, os símbolos contidos em roupas e acessórios de luxo as- sumem papel decisivo na tomada de decisão do consumidor. Em outras palavras, mais do que adquirir uma bolsa ou uma calça, o consumidor desses produtos compra um símbo- lo, conforme já nos apontava Pierre Bourdieu (1992): “Assim, a linguagem e as roupas, ou melhor, certas maneiras de tratar a linguagem e as roupas, introduzem ou exprimem desvios diferenciais no interior da sociedade, sob a forma de signos ou insígnias da condição ou da função. Dentre todos os tipos de consumo e de conduta passíveis de abrigar uma função expressiva, quer se trate da compra de um automóvel, da decoração de um aparta- mento ou da escolha de uma escola para os filhos, são as roupas e os enfeites (em virtude de seu elevado rendimento simbólico) que, ao lado da linguagem e da cultura, melhor realizam a função da sociação e dissociação. Como observa Simmel, a moda do vestuário é um processo que combina a individualiza- ção e a imitação que (...) exprime de modo paradoxal a vontade de afirmar a particu- laridade pela busca da diferença última. E Simmel observa ainda que a moda, porque permite marcar simbolicamente ‘a distinção’ pela possibilidade de adotar sucessivamente diferentes signos distintivos, obedece a uma lógica semelhante à da honra (pelo menos a que se observa nas sociedades estratifica- das), na medida em que também confere uma marca comum aos membros de um grupo particular, distinguindo-os dos estra- nhos ao grupo” (Bourdieu, 1992, p. 18). Nesse sentido, o preço pago pelo consumidor de um produto de luxo, embora se reconheça o dife- rencial da qualidade dos materiais utilizados e a quase unicidade da peça, não é determinado pelo seu valor de uso, porém pelo seu valor simbólico. Para aqueles cujas rendas impedem o consumo desses produ- tos, a solução se apresenta pelo esforço, por meio da comparação sistemática, em adquirir, pelo menor preço, o maior valor simbólico pos- sível (Bourdieu, 1992). Em suma, o componente simbólico do produto da indústria da moda de luxo desempenha papel crucial no processo de construção do gosto do seu consumidor, uma vez que já discutimos o desejo dos indivíduos de se diferenciarem das outras pes- soas. Diante disso, um novo grupo de questões se apresenta e versa sobre a importância da criatividade e da inovação para garantir a in- corporação do valor simbólico ao produto, assim como discute a cada produto se constituem nos principais determinantes da de- manda. Nesses trabalhos, refuta-se a máxima “gosto é gosto e não se dis- cute” e se desvenda o processo indi- vidual e coletivo de sua construção, ou seja, por um lado, como bem aponta Bourdieu (1997), o homem procura se diferenciar daquilo que considera corriqueiro e, por outro, por sermos seres socialmente cons- truídos, sofremos a influência do ambiente em que vivemos (Lewis, 1990). Sá Earp (2002) resume bem esse processo: Google images Ads By Google

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