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Marleine Paula M. F. Toledo 67 SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M nudez é a constituição ontológica do homem. Seja qual for a crença, ou não crença, as primeiras páginas do Gênesis são emblemáticas para o conhecimento da natureza humana. O casal arquetípico, assentado no paraíso, cometeu uma falta que se tornouhereditária e que acarretouuma condenação à morte para si mesmos e para toda a sua descendência. Imedia- tamente depois desse erro iniciático, experimentaram, pela primeira vez, o medo, porque se viramnus: “ tivemedo porque estou nu, e me escondi ”. 1 Assim, a nudez está ligada ao medo da morte. O homem vê que tudo a seu redor morre e apodrece e se apavora quando entende que esse também é seu destino. Esconde-se e veste-se. A veste é, pois, iniciática. E é uma metáfora da defesa. Simboli- za a couraça de que o homem precisa revestir-se para enfrentar um exterior hostil de onde lhe advirá, fatalmente, a morte. Os beduínos vestem-se de lã para proteger-se contra o calor do deserto; o sertanejo do nordeste brasileiro veste-se de couro para enfrentar a caatinga agressiva e espinhosa: A “ As vestes são uma armadura. Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta; apertado no colete também de couro; calçando as perneiras, de couro curtido ainda, muito justas, cosidas às pernas e subindo até as virilhas, articuladas em joelheiras de sola; e resguardados os pés e as mãos pelas luvas e guarda-pés de pele de veado – é como a forma grosseira de um campeador medieval desgarrado em nosso tempo ”. 2 Gian Paolo Dessolis Google images
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