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Veste e moda 70 R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 A veste é então uma alegoria de tudo o que preenche, ainda que provisoriamente, o não ser, as carências humanas. A tragédia de Adão, símbolo de todo homem, é querer viver e saber-se conde- nado à morte. É preciso então buscar a vida em todos os lugares onde é possível que ela esteja; psicologicamente nu, o homem vai cobrindo-se com as vestes do sucesso, do poder, do prazer, da riqueza, da fama, de tudo o que o livro do Eclesiastes diz que é engano e vaidade, mas pode dar satisfação momentânea: O Eclesiastes era um dos livros preferi- dos de Machado de Assis, e essa vesti- duradanudezpsíquica ébemilustrada por Jacobina, personagemde “Oespe- lho”, um de seus grandes contos. Numa tertúlia de alta transcendên- cia, Jacobina propôs a existência de duas almas: “Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro...” 8 . Abramos um parêntese esclarecedor a Machado: alma vemde anima; é aquilo que anima, dá vida; portanto a perda de qualquer uma dessas almas implica naturalmente à morte; morte física, se a perdaédaalma interior;mortepsíquica, quando se perde a exterior. Segundo Jacobina, a alma exterior pode ser vários objetos de desejo, inclusive uma veste, como foi o seu caso. Aos vinte e cinco anos foi nomeado alferes da Guarda Nacional e recebeu a farda competente, que lhe conferiu status de importância; foi alvo demuitos convites ehonrariasemvistada farda, quepassou a ser a sua alma exterior. Como prêmio, foi convidado por sua tia Marcolina a passar ummês comelana roça, levando “Vaidade das vaidades – diz Coélet – vaidade das vaidades, tudo é vaidade. Que proveito tira o homemde todo o trabalho comque se afadiga debaixo do sol? Uma geração vai, uma geração vem, e a terra sempre permanece” 6 . Google images

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