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Marleine Paula M. F. Toledo 71 SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M evidentemente a farda para ser vestida e vista. Acontece que a tia precisou ausentar-se para acudir inesperada doença na família e ele acabou ficando sozinhonaquele local escusoedistante. Sentiu-se completamente perdido, sem referências, um robô. Olhando-se ca- sualmente numgrande espelho, viu sua imagem esgarçada e sem contornos. Assustou-se. Ocorreu-lhe então vestir a farda de alferes.Voltando a contemplar- se, o espelho reproduziu sua imagem nítidaeperfeita.Tudoreadquiriusentido; ele não era mais um autômato, era um ente animado; voltou a viver, porque recuperou sua alma exterior. A farda é, claramente, uma metáfora: A farda – e a veste – metaforiza a alma exterior, que não só Jacobina, mas todo homem tem. Preenche as carências pessoais. Em certa medida, o hábito, realmente, faz o monge. A grande afluência às fashion weeks , a alta costura internacional e as revistas de moda que o digam. Moda vem do latim modus , na acepção de maneira de se conduzir (é feminina porque passou pelo francês mode ). 10 A moda muda no tempo e no espaço, figurando a caducidade de todas as coisas – já sublinhada pelo Eclesiastes. Camões, antecipando-se ao Barroco, sentiu e exprimiu a transitoriedade de tudo. Nada é constante, tudo sofre transformação, e de tal forma que não se pode metodizar essa mudança, porque as coisas não mudam sempre do mesmo jeito: “Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisica- mente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira” 9 . Vassiliki Koutsothanasi Gerhard Höllisch
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