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Veste e moda 72 R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; Todo o Mundo é composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades. Continuamente vemos novidades, Diferentes em tudo da esperança; Do mal ficam as mágoas na lembrança, E do bem (se algum houve...) as saudades. O tempo cobre o chão de verde manto, Que já coberto foi de neve fria, E em mim converte em choro o doce canto. E, afora este mudar-se cada dia, Outra mudança faz de mor espanto: Que não se muda já como soía” 11 Pode-se acrescentar-lhes Fernando Pessoa, em seu heterônimo clássico Ricardo Reis, que tira das consi- derações sobre a transitoriedade da vida conclusões epicuristas: as rosas metaforizam as coisas do mundo, que não têm um ser, têm apenas um existir. Se tudo acaba, se nossa vida é um dia, é preciso viver intensamente o pouco tempo que temos. Portanto, carpe diem : A moda do vestuário, no decorrer dos últimos 50 ou 60 anos, co- nheceu mudanças muito rápidas e coercitivas, visto que o homem, também no que se refere ao ves- tuário, é um animal mimético. Sobretudo a mulher. Cinqüenta anos atrás as meninas- moças (era assim que se dizia) ganhavam vestido novo no Natal O sol é grande, caem coa calma as aves, do tempo em tal sazão, que sói ser fria; esta água que d’alto cai acordar-m’ia do sono não, mas de cuidados graves. Ó cousas, todas vãs, todas mudaves, qual é tal coração qu’em vós confia? Passam os tempos, vai dia trás dia, incertos muito mais que ao vento as naves. Eu vira já aqui sombras, vira flores, vi tantas águas, vi tanta verdura, as aves todas cantavam d’amores. Tudo é seco e mudo; e, de mistura, também mudando-m’eu fiz doutras cores: e tudo o mais renova, isto é sem cura!” 12 “As ROSAS amo dos jardins de Adônis, Essas volucres amo, Lídia, rosas, Que em o dia em que nascem, Em esse dia morrem. A luz para elas é eterna, porque Nascem nascido já o sol, e acabam Antes que Apolo deixe O seu curso visível. Assim façamos nossa vida um dia, Inscientes, Lídia, voluntariamente Que há noite antes e após O pouco que duramos.” 13 Sá de Miranda escreve na mesma clave, enfatizando a loucura de quem confia nas coisas do mundo: Mario Alberto Magallanes Trejo
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