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A juventude indígena 86 R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 No ano de 1981, em plena capital federal, 15 jovens indígenas de sete etnias, todos estudantes, receberam uma ordem para retornarem às suas aldeiaspor determinaçãodoentão todo poderoso, General Golbery doCouto e Silva. O argumento, simplesmente, era que Brasília não podia abrigar aqueles estudantes indígenas, por ser uma ci- dade “atípica”. Naverdade, por trásdesses argumentos, havia todo um arcabouço ideológico do regime militar de não permitir o surgimento de líderes indígenas com conhecimento tradicional e identidade cultural própria, somado ao acesso a novos conhecimentos como o ingresso em escolas modernas e até universi- dades como eles vinham fazendo. Assim, apartir daquelemomento, aque- les jovensdecidemtransformar umtime de futebol para intercâmbios comesco- las euniversidades, aUniãodasNações Indígenas, aUNIND, noprimeiromovi- mento político da história indígena, pós-Confederação dos Tamoios, sob o lema: Posso ser o que você é, sem deixar de ser quem sou! Agora, em pleno Século XXI, era da modernidade e tecnologia, dos celu- lares, computadores e comunicação quase que instantânea, o Brasil se descobre ainda com 230 povos de 180 diferentes línguas, vivendo em comunidades tradicionais e com uma população crescente que cor- responde a 3 por 1 em relação aos demais brasileiros, principalmente a população jovem. Como viveme o que falta a essa juven- tudequenascenumcenáriode sonhos, vivendo num mundo quase isolado, para, de repente, organizar-se falando duas línguas e vivendo dois mundos. Quais seriam as perspectivas futuras dessa “tribu”? Teriam razão os irmãos Vilas Boas e o modelo de proteção adotado por eles em Reservas? Teria razãoDarcyRibeiro, aoperceber, ainda nos anos 50, o risco do que chamava de fricção inter-étnica? A realidade que envolve comunidades indígenas,mesmocomas terras demar- PORDETERMINAÇÃODOENTÃO TODO PODEROSO, GENERAL GOLBERY DO COUTO E SILVA, OARGUMENTO, SIMPLESMENTE, ERA QUE BRASÍLIA NÃO PODIA ABRIGARAQUELES ESTUDANTES INDÍGENAS, POR SER UMA CI- DADE “ATÍPICA”. cadas, se vê retratada com a chegada de novas cidades, novas estradas, luz elétrica, telefone, computadores que varrem áreas isoladas em busca de novosconsumidores, semqualquerpre- conceito de cor ou raça, que atingem, agora, a juventude indígena. Como, então, conciliar as histórias an- cestrais e como acessar, sem se deixar dominar, a tais tecnologias?Vítimas ou protagonistas? Modismo ou intercul- turalidade? Quatro jovens indígenas, de quatro etnias distintas, contamem seus depoi- mentos o que seria essa modernidade, como encarar a chegada da moder- nidade, não só tecnológica mas que afeta comportamentos, que vão do

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