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Marcos Terena 89 SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 – R E V I S T A D A E S P M Quase todos os finais de semana corre para a aldeia e abandona a vida da cidade, deixando de lado os tênis e a calça jeans. Sabe que não pode falhar, e quando a saudade e o desânimo chegam, se lembra dos ensinamentos de seus pais: Waye Zé Wenatyi que, traduzido, significa: “o futuro não está escrito, nós escreve- mos nosso próprio destino”. Como todo jovem, mesmo vivendo numa cidade do interior e sentindo cada vez mais a chegada dos novos costumes, sabe que é preciso dar exemplo de sabedoria e manejar duas culturas e dois níveis de vida: a atração da modernidade e a raiz das tradições; poisassim, afirma, “seremos respeitados como índios e como parte do novo Brasil, como um país de todos nós.” Silmara Terena, 17 anos, estudante do ensino médio, nasceu no Posto Indígena de Taunay, portal do Pantanal Sul-matogrossense e, agora, vive numa das aldeias urbanas deCampoGrande, onde tambémensina, voluntariamente, às crianças, a doutrina bilíngüe – na- tiva e portuguesa – além das danças e tradições de seu povo. De jeans e sandálias de couro, sempre assediada por sua simpatia e beleza, e ainda muito jovem, já tem convicção do que busca: A soli- dariedade entre os povos, baseado na palavra Utikopoinokokoti, que significa somos irmãos. Como todo jovem de sua idade, gosta de se enfeitar para as festas tradicio- nais comcolares e pinturas. Mas, para ir à escola, se transforma completa- mente, pois sabe que deve se afirmar perante outros colegas não indígenas, como estudante bilíngüe, indígena que sonha com o sucesso pessoal e familiar,mas que sabe das dificuldades para atingir issonuma região conserva- dora e altamente preconceituosa com os indígenas. “Gostodeme sentir bem. Mesmo tendo pouco dinheiro, pro- curo usar enfeites do branco porque vivo no meio deles e sei dos costumes deles, mas sei também a hora de usar a beleza indígena. Tudo depende da ocasião e do bom gosto. Gosto das duas culturas”, afirma. Ficou triste e revoltada com a recente campanha, na mídia local, feita por fazendeiros e latifundiários contra a demarcaçãodas terras. “Tive tiosque fo- ramnaSegundaGuerra lutar peloBrasil e pela paz, e meu povo não tem terra, mas, quando chega a eleição, todos esses políticos, que estão contra nós, correm para a aldeia pedindo votos. Mas nós vamos dar o troco na próxima eleição. Por isso, quando traduzimos o Hino Nacional na nossa língua, senti a coragemdo nosso povo quando cantei RONAN KEZONAZOKEMAE, JOVEM DE 19 ANOS DO POVO PARESI, SAI CEDO PARA ESTUDAR, TRABALHA COMO AUXILIAR DE ENFERMAGEM NA CASA DO ÍNDIO. É DE LÁ QUE MANDA SEUS E-MAILS E FALA DE SEU POVO.
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