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A juventude indígena 90 R E V I S T A D A E S P M – SETEMBRO / OUTUBRO DE 2008 SILMARA TERENA, 17 ANOS, ES- TUDANTE DO ENSINO MÉDIO, NASCEU NO POSTO INDÍGENA DE TAUNAY, PORTAL DO PAN- TANAL, SUL-MATOGROSSENSE E, AGORA,VIVENUMADASALDEIAS URBANAS DE CAMPO GRANDE, ONDETAMBÉMENSINA,VOLUN- TARIAMENTE ÀS CRIANÇAS, A DOUTRINA BILÍNGÜE. noDia Internacional do Índio, e vamos vencer, pois anossa forçacaminhacom o vento, pois é espiritual.” Há uma identidade entre os jovens entrevistados e a juventude em geral, pois são retratos da realidade brasileira e apresentam alguns sin- tomas que percebemos, como a sedução dos aparelhos eletrônicos, mídias, modas e comportamentos. Todo índio é vaidoso e consumidor por natureza. A grande diferença está na capacidade de perceber limites, tanto no homem como na mulher. O consumismo indígena, por exemplo, depende da capacidade de usar a natureza como fonte mutável e que pode ser extinta, uma filosofia que o consumidor urbano só percebe quando o dinheiro acaba. O estilo de vida indígena, então, passa a ser ditado de acordo com seu meio ambiente ou seu habitat, como o fato de não necessitar de roupas ou usá-las em pouca quanti- dade. Não existe pijama na aldeia, nem tampouco o mosquiteiro. Salto alto, nem pensar. Mas hoje belas panelas de barro começam a ser substituídas por panelas mais leves, como as de alumínio. As artes, as peças e artesanatos indí- genas, que antes eram trazidos como troféus dos conquistadores, passam a ser vistos como peças importantes da moda e mensageiros ecologicamente corretos, com exceção dos cocares fei- tosdepenas, deusopessoal dosgrandes chefes, queo IBAMAe aPolícia Federal entendemsermecanismodepirataria e não de costumes e tradições, mas um debate ainda em seu início. Com isso, a tradição indígena cobra, mais uma vez, dos demais brasileiros, a busca de sua identidade cultural, onde os valores indígenas sejam partes de umaafirmaçãonacional edemonstram, com isso, que a cultura de um povo não deve ser ditada por fontes externas; mesmo com as diversas mutações, comoas novas formas de se vestir, de se pintar ede seapresentar.Umadinâmica natural do ser humano. Por outro lado, há uma grande diferença de compor- tamento do indígena nas suas relações externas, como o uso de pinturas e cocares, nemsempre usados na aldeia, ou de uso pessoal das autoridades. Na épocadaConstituinte, noanode1988, os líderes tradicionais indígenas viam, em Ulysses Guimarães, o ancião e o chefe dos deputados e, por isso, numa das primeiras reuniões para a aprovação do Capítulo Indígena, coroaram o Presidente da Câmara com um Cocar Kayapó. Mas, nesse caso, havia o sentido mais político como forma de sinalizar a outros deputados e autoridades que, assim, um acordo não escrito, mas ético e democrático estava selado com o Congresso Nacional. Dali nascia a lenda, também estratégica, para a luta indígena, de que Cocar dava azar. Se é verdade ou não, o impor- tante é que o direito indígena, na Carta Magna, foi assegurado, mesmo sem ter nenhuma representação na Assembléia Nacional Constituinte. Os jovens indígenas entrevistados são enfáticos quando testemunham sua origem e a manutenção da tradição e da identidade cultural e, ao mesmo tempo, o uso dos costumes e modas contemporâneas, sem qualquer medo ou discriminação. Cada qual do seu jeito, acompanham as crises e fatos políticos como o quadro de corrupção, existente no Brasil, e, em nível interna- cional, torcem por Barack Obama. So- nham com um Brasil mais ético e mais democrático. Comonodizer de Samira Xavante, “hojequeremnos tirar oBrasil. O Brasil é parte do nosso coração. Se tirarem nosso coração, morreremos. O Brasil só existe porque nossos antepas- sados foram éticos e solidários com os portugueses e todos os que hoje vivem emnosso País. Se alguémé estrangeiro, não somos nós!” MARCOS TERENA Comunicador e escritor indígena, é ar- ticulador dos direitos indígenas e filho do Povo Terena da região do Pantanal Sul-matogrossense. ES PM
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