Revista da ESPM
R E V I S T A D A E S P M – março / abril de 2011 82 } Temos o IPI, ICMS, ISS, CIDE, COFINS e PIS por causa dessa estrutura tributária que precisa atender a três esferas de uma Federação que não sabe onde pisa. ~ SÉRGIO – Hoje, a questão dos BRICs ou RICs é uma discussão corrente, a começar pela própria denominação, que questiona se o B vai sumir ou não dessa composi- ção. Daí a pergunta: estamos pron- tos para ocupar o lugar que nos cabe? Queremos ser uma grande potência ou vamos perder a chance mais uma vez? Porque, historica- mente, já tivemos momentos em que um salto qualitativo poderia ter ocorrido. MARCONINI – Minha tendência é não ser tão pessimista sobre o Brasil quanto a pergunta sugere. É muito comum a nossa preocupa- ção, como brasileiros, de estarmos atrasados em diversos aspectos, comparando não apenas com os países do BRIC, mas com outros emergentes. Conhecemos bem a situação da educação no País, quanto perdemos até agora por não termos feito o necessário em termos de uma educação voltada para a inovação e a tecnologia – essas questões que outros países já ultrapassaram. Mas o Brasil não está tão ruim assim no cenário, sobretudo em comparação com os outros do BRIC. Ocorre que temos uma grande lição de casa para ser feita, que depende apenas de nós. A China, por exemplo, continu- ará numa posição de dínamo da economia mundial, pelo menos nos próximos vinte anos, prin- cipalmente sob o ponto de vista dos investimentos internacionais. Mas ela tem seus limites: lá não tem água; há muito deserto; tem um bilhão de pessoas, sendo que 800 milhões devem ser incluídas; e ex iste também um problema político enorme, sobretudo agora nummundo onde há cada vez mais contestação. Vejo que o horizonte da China é para uns vinte anos, depois não sei se dá para ser tão otimista sobre o que pode acon- tecer. Isso sem considerar que ela pode se armar cada vez mais e até causar problemas geopolíticos. A Rússia talvez não devesse estar nesse grupo, que está muito mais para BIC do que para BRIC, por- que ela é bastante diferenciada, muito limitada economicamente e está focada em duas questões: petróleo e politicagem interna e externamente. Já na Índia, o cres- cimento de fato está ocorrendo, mas há limites. Ela tem um nível elevado de pobreza e ainda assim seu foco é em tecnologia da infor- mação. Conseguiram estabelecer um grupo de competitividade em serviços, mas isso também tem limites, não dá para construir um país em cima disso. Então, o Brasil não está mal na fotografia. LUIZ AUGUSTO – Realmente, do ponto de vista de instituições, apesar de tudo, o Brasil é, certa- mente, a democracia mais vibrante de todos os quatro países. China e Rússia são reg imes ma is ou menos autoritários, enquanto a Índia é uma democracia restrita a 5% de sua população, um país que tem péssimos indicadores socia is, problemas de casta, e centenas de milhões de pessoas que vivem na mais abjeta miséria. A expressão BRIC foi inventada por Jim O´ Nei l l, economi sta- chefe do banco Goldman Sachs, para assinalar quatro países que, a ju í zo dele, pela d imensão e pelo desempenho ao longo dos anos, estavam fadados a ter um papel mais importante na socio- economia mundial, mas isso não quer dizer que os países do BRIC const it uam um conjunto ma is ou menos homogêneo. A agenda comum é extremamente precária: temos parcerias e competidores. O caso da China é o mais claro. Vivi quatro anos lá e tive a oportunida- de de observar esse fenômeno bem de perto. A China tem uma série de parcerias interessantes com o Brasil, mas também é um compe- tidor importante. Dos quatro, é o que, de longe, tem a melhor infra- estrutura e é essa infraestrutura que lhe dá uma grande vantagem comparativa. Enquanto isso, temos mais é de fazer nosso “dever de casa”. O empresário brasileiro se queixa, com justa razão, de uma alta carga tributária e de uma legislação trabalhista que inibe a geração de emprego num país com 200 milhões de habitantes, onde a mão de obra, por ser mais abun-
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