Julho_2003 - page 17

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R E V I S T A D A E S P M –
J U L H O
/
A G O S T O
D E
2 0 0 3
yw
descendênciapolíticadosque se in-
surgiamcontraoscésares-divinosde
Roma, pelamisericórdiacomoshe-
reges medievais até chegarmos à
complacênciacomoscriminososda
atualidade.Semprehouvealgum tipo
de tolerânciae, emgrausdiferentes,
um limiteparaela.
NaAntigüidade, principalmente en-
treosestóicos,a
tolerantia
significou
suportar tudo que fosse uma carga
para o corpo humano e, por ana-
logia, para amente humana. Para
os autores latinos, significouaper-
severança e a força para enfrentar
osmales,as adversidades eos ele-
mentosnaturais.A raiz
tollo
deno-
tou o esforço que fazemos sobre
nós mesmos.
O cristianismo nascente associou o
conceitode tolerânciaaoautodomí-
nio requerido para agüentar as do-
res da existêncianaTerra.A tolerân-
cia era um dos sinônimos da
patientia
. Um conceito privado, do
indivíduoqueéoudeve ser toleran-
te. Já com os padres da Igreja,
notadamente com Sto. Agostinho
(1952), a
tolerantia
passa a ter uma
acepçãocoletiva:adoautocontrole
dacristandadeao lidarcomosmaus,
com as pessoas imorais, com os in-
fiéis.Ada caridade, que ajuda a su-
portar os que são um peso para a
humanidade.
Oconceitode tolerância se firmana
IdadeMédia. Emboraa religiãoeos
dogmas da época tivessem pouca
elasticidade,omesmonãoocorriana
políticanemna interpretaçãoda lei.
Porvoltade1150,odireitocanônico
já contemplava situações em que o
mal não deve ser punido. Pregava
que,quandoomalpraticadoésecu-
lar, pode haver uma permissividade
daautoridadeeclesiástica,oquenão
quer dizer uma aprovação
(Ecclesia
nonapprobat,sedpermittit)
.Também
deveriahaver tolerânciaaosepreve-
nir um mal maior (
Minus malun
toleraturutmaius tollatur
).Porexem-
plo, mentir para preservar a Igreja.
Nesse contexto o verbo
tolerare
é
usado com freqüência para contor-
narumproblemaparaoqual não se
temremédio,comoodaprostituição,
ouparaordenaroconvíviocomgru-
pos irredutíveisà lei canônica,como
odos judeus. (Bjeczvy,1995)
A tolerânciapassou a significar a in-
dulgência entre os credos após as
guerras religiosas dos séculos XVI e
tição e na ignorância, em nome do
interesse público. Dizia ele que de-
vemos nos tolerar porque todos so-
mos falíveis.Alémdisso,a tolerância
émelhor tambémdopontodevista
econômico.Ela favoreceocomércio
de bens e traz a riqueza
(Voltaire,
1966).
Oargumento legalistadizque
a intolerânciaéummal porquepro-
duzacoalizãodosdissidentes
(Locke,
1959),
eporquea repressãoaos he-
regesécontraproducenteporquecria
mártires
(Erasmo,1999).
Oargumen-
topolíticodiz que a intolerância re-
forçaaconvicçãodosquediscordam
e gera a revolta
(Espinosa, 1999).
O
argumento epistemológico diz que
devemos ser tolerantes porque nin-
guémpodepretender tera razãoab-
soluta, sóDeus.
NaDeclaraçãodosDireitos doHo-
memde1789 (1999)a tolerância foi
associada à concessão do erro, à
condescendência,à liberalidadedos
costumes, comoadascasasde tole-
rância. No século XIX, John Stuart
Mill (1963) avançou razõesparade-
fender a idéiadodireitoàconsciên-
cia individual. O argumento liberal
rezaqueháumaesferadeaçãoque
interessaprimariamenteao indivíduo
humano e sobre aqual a sociedade
nãopode e nãodeve interferir. Essa
noçãodesembocanas idéiasdecom-
preensão e de incorporação das di-
ferenças, que sãoo cernedo libera-
lismomoderno.A liberdadeparaMill
é a liberdade do indivíduo ante as
coações.Opúblico eoprivado são
esferasdistintas,emquea tolerância
é imprescindível.
Na vertente inversa do pensamento
político,osocialistaProudhon (1967)
sustentoua tolerânciacomoutro fun-
damento: o do argumento crítico,
quedizquesócoma tolerânciacom-
pleta seria possível fazer aflorar as
falsas idéias, eque isso as anularia.
HermanoRoberto Thiry-Cherques
“Respeitar um
concorrente ou
respeitar um
parceiro é
admirar oque ele
fez ou temer o
que ele possa
fazer.”
XVII. Os argumentos a seu favor se
acrescentam aos da Antigüidade e
aosda IdadeMédia.Eles se repetem
desde então. O argumento moral
(Erasmo, 1999; Locke, 1964)
diz
que a perseguição é violência e
que a violência se opõe à civilida-
de e à caridade. O argumento da
essência diz que se concordamos
política ou religiosamente no fun-
damental (
credominimum
), a ra-
zão da intolerância desaparece
(Erasmo, 1999; Voltaire, 1831).
Voltaire argumentou que a tolerân-
cia se opõe ao fanatismo. Que era
preciso esmagar o fanatismo cristão
(écraser l´Infâme) fundad
onasupers-
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